Arquivo do autor:Rui Costa Pimenta

ANÁLISE POLÍTICA DA SEMANA: A FRENTE DE ESQUERDA

Imagem

NAS RUAS, CAUSA OPERÁRIA Nº 779

779-10001

Prenúncio de tempestade

14dez2013---rolezinho-no-shopping-internacional-guarulhos-grande-sp-terminou-em-tumulto-e-com-mais-de-20-detidos-o-encontro-dos-jovens-foi-marcado-nas-redes-sociais-1389638659467_956x500
Os eventos que ficaram conhecidos como “rolezinhos”, em que jovens da periferia marcam encontro em shoppings centers, têm se espalhado pelo país.

O início desse movimento não foi casual. Poucas semanas antes tinha havido pelo menos dois casos de repressão a jovens de periferia em shoppings. O mais marcante deles foi o do Shopping Vitória, no Espírito Santo. Jovens tentaram se refugiar no shopping após repressão policial a um baile funk que acontecia próximo dali. Não adiantou. Os lojistas se assustaram com o novo público e a polícia deteve todos, não sem antes humilhá-los.

Pouco depois os “rolezinhos” começaram a se proliferar. Os encontros, que já aconteciam há algum tempo, ganharam um volume inesperado. Um evento marcado para o shopping Itaquera, em São Paulo, reuniu milhares de jovens e foi reprimido brutalmente pela polícia. Após essa repressão, mais eventos foram marcados para diversos shoppings de São Paulo, que conseguiram liminares judiciais para impedir que eles acontecessem.

Mas como impedir o evento sem fechar o local? A solução encontrada pelos empresários foi fazer uma “triagem” das pessoas, selecionando quem estava apto a entrar ou não. Todos os que tivessem “cara de pobre”, e isso na maioria das vezes significa ser negro – seriam barrados.

A medida é inclusive inconstitucional, pois impede com base em critérios de raça, cor, classe social, o acesso de pessoas a estabelecimentos comerciais e local aberto ao público em geral.

Os “rolezinhos” acabaram, assim, revelando que o Estado brasileiro é profundamente racista, ao contrário dos ideólogos da democracia racial brasileira, mas principalmente, que sequer é uma democracia.

Esses acontecimentos só deram força ao “movimento”, que acabou se espalhando por outros estados, como Rio Grande do Sul, Bahia, Ceará, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Minas Gerais, entre outros.

A imprensa capitalista em lugar de atacar os “rolezinhos”, tem procurado desviar do assunto principal e desvincular os mesmos da política.

“Especialistas” entrevistados pelo portal G1, pertencente às organizações Globo, afirmaram que ver os rolezinhos como manifestação política é “bobagem”. Eles seriam uma forma de manifestação social, cultural, uma demonstração do anseio para participar da “sociedade de consumo”, “não critica-la”, uma expressão da falta de opções de lazer oferecidos pelo governo ou mesmo apenas vontade de se divertir. Isso é o que, de uma maneira ou de outra, diz toda a imprensa capitalista.

Primeiramente, é preciso observar que eles não são acontecimentos isolados, mas que, pelo contrário, ocorreram depois de inúmeras manifestações da periferia no último período.

Nas manifestações de junho já havia uma participação dos jovens de periferia, mas elas se deram principalmente na região central da cidade de São Paulo e com ampla participação de universitários. Depois de junho, as manifestações começaram rapidamente a se espalhar para as periferias propriamente ditas. Passeatas para protestar contra a situação do transporte ou por moradia passaram a ser organizadas em bairros como Guaianazes, Capão Redondo e outros, diante dos quais o governo imediatamente cedeu.

Poucos meses depois as manifestações se tornaram mais radicais, com queima e apedrejamento de ônibus e bloqueio de rodovias. Duas delas ocorreram na zona Norte e se deram em protesto contra a polícia, que assassinou a sangue frio dois jovens de bairros da região. Nas duas ocasiões, que aconteceram com intervalo de uma semana, a população se rebelou.

Não podemos esquecer também da grande repercussão do caso Amarildo, que havia desaparecido após ser levado para uma UPP. Diante da pressão, policiais confessaram que o ajudante de pedreiro havia sido torturado e assassinado.

No final de novembro, houve o caso do shopping em Vitória e uma semana depois os “rolezinhos” começaram a ganhar maiores dimensões. Vale destacar ainda que, no meio disso, houve um protesto num bairro periférico de Campinas, onde policiais encapuzados promoveram uma chacina.

O fenômeno dos “rolezinhos” está, portanto, totalmente ligado não apenas às manifestações de junho, como a uma crescente mobilização das periferias.

O que tem despertado essas mobilizações é a violência policial, ou seja, a repressão estatal contra a população. A reação contra a polícia também vem sendo preparada há anos. A PM vem sendo chamada a agir com mais violência pelo menos desde 2007, se concentrando inicialmente nas manifestações estudantis, que despontaram a partir da ocupação da reitoria da USP aquele ano. Estudantes presos, acusados de formação de quadrilha, espancados. Mas a repressão logo foi atingindo outros setores: a desocupação violenta do Pinheirinho, da Cracolândia, entre outros. A revolta contra a polícia finalmente explodiu em junho de 2013, em especial com a brutal repressão do dia 13.

Tanto é assim que os rolezinhos dos jovens se espalhou de fato após a repressão policial no shopping Itaquera e com a série de decisões judiciais proibindo os eventos e propondo multa para quem descumprisse a resolução.

Consciente ou não, a expansão dos eventos foi uma resposta a essa situação.

Há muito tempo a polícia tortura e mata pessoas na periferia, assim como há muito tempo jovens negros e pobres são discriminados nos ambientes da burguesia e da pequena burguesia. Por que só agora a população está se levantando para protestar contra isso?

Impossível, diante desses fatos, encarar os rolezinhos como uma manifestação puramente cultural, que ganhou repercussão por acaso. Assim como também não é possível dizer que todas essas manifestações e levantes populares são fatos isolados.

A crise econômica que já começa a se manifestar no Brasil está elevando a temperatura da situação política. A juventude universitária foi a primeira a romper a barreira e lutar contra a verdadeira ditadura reinante no País, expressando um descontentamento geral da população. Logo foi seguida pela população trabalhadora desorganizada, nas periferias e mais à frente se expressará no movimento dos trabalhadores enquanto classe.

Os últimos acontecimentos só mostram a enorme amplitude da insatisfação popular e é isso que amedronta a burguesia, que, após a repressão promovida pelo governo do PSDB, está procurando colocar panos quentes sobre a situação, mostrando tolerância, simpatia, procurando direcionar o movimento e desvinculando totalmente da política.

Os capitalistas, o governo, todos aqueles que dominam o país, têm plena consciência da situação e do fato de que todos os acontecimentos até agora são apenas o prenúncio da tempestade. É por isso que o Congresso está discutindo a aprovação de uma lei antiterrorista e que o Ministério da Defesa publicou um documento que visa a legalizar a atuação das forças armadas como polícia, para “garantir a lei e a ordem”, ou seja, esmagar toda manifestação popular e operária. Eles estão se preparando para enfrentar o que vem pela frente. É chegada a hora dos trabalhadores também se prepararem.


ANÁLISE POLÍTICA DA SEMANA: A PERSEGUIÇÃO AOS PARTIDOS DE ESQUERDA

Não há soberania nacional sem a derrota do imperialismo

patrice_lumumba 

No dia 17 de janeiro completaram-se 53 anos do assassinato do líder nacionalista congolês Patrice Lumumba.

Mas, diferente dos outros aniversários de sua morte, agora é comprovado que partiu do próprio presidente norte-americano Eisenhower a ordem para mata-lo.

O fato veio a público com a divulgação do novo volume da história da diplomacia norte-americana, publicada pelo Departamento de Estado e para isso enviou ao país o agente da CIA Frank Carlucci.

Deposto apenas três meses após sua eleição, Lumumba foi levado por mercenários belgas e congoleses, torturado brutalmente por duas semanas e depois finalmente amarrado a uma árvore e fuzilado. Seu corpo foi então retalhado e mergulhado em ácido sulfúrico, para logo depois ser espalhado em seus diversos pedações por diferentes lugares.

A operação foi toda organizada pelos Estados Unidos, com a cooperação do Reino Unido e da Bélgica, que colonizou o país.

Eles começaram a financiar congoleses para o processo de derrubada do governo recém-eleito.

Lumumba chegou a pedir a intervenção da ONU, mas essa, evidentemente, somou-se à conspiração golpista.

Na última década, vimos ressurgir o fenômeno do nacionalismo burguês, em especial na América Latina. Ele atingiu seu auge nas décadas de 1940 e 1950, não só no continente, mas de certo modo todos os países atrasados do mundo, como Índia, Irã, Indonésia, entre outros.

O nacionalismo burguês que surge nesses países é essencialmente uma expressão da necessidade de se libertar da opressão imperialista e possibilitar o desenvolvimento capitalista represado.

No entanto, os governos nacionalistas, devido ao seu caráter burguês, não têm condições de romper de fato com o imperialismo e, portanto, não conseguem levar a cabo a tarefa de libertar o país.

A encruzilhada está em que para derrotar a dominação imperialista, é indispensável a mobilização e o armamento dos trabalhadores, o que conflita (e assusta) totalmente com os interesses, burgueses, desses governos. Hoje há uma enorme campanha na imprensa contra todos os governos desse tipo. O chavismo na Venezuela, Rafael Correa, no Equador, Evo Morales, na Bolívia, Cristina Kirchner na Argentina e os próprios governos petistas no Brasil.

Não é incomum chamarem a esses governantes de ditadores e usar uma suposta falta de democracia, bem como a corrupção, para tentar derrubar esses governos, manobra bem sucedida no Paraguai e em Honduras.

Essa campanha é orquestrada diretamente pelo Departamento de Estado norte-americano para repercutir na imprensa capitalista, subserviente aos seus interesses, de cada um desses países.

Como no caso de Lumumba e dos inúmeros golpes militares que tiveram lugar na América Latina, a intenção de tirar esses governos do caminho não ficará apenas no discurso. A tendência diante do ressurgimento e fortalecimento desses governos é a derrubada violenta dos mesmos por meio de golpes de estado. Diante desses golpes, o nacionalismo burguês se revelou em todas as situações, completamente impotente. Por isso, os trabalhadores devem se organizar para derrotar por meio de suas próprias forças o avanço do imperialismo sobre o país, que se dá por meio de todo uma ala da burguesia que é completamente submissa a seus interesses.