Internato Brasil

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sábado, 30 de outubro de 2010

O Conselho Nacional de Educação deliberou proibir as crianças das escolas de Brasília de terem acesso nas salas de aula ao livro Caçadas de Pedrinho do grande escritor brasileiro Monteiro Lobato.
Esse fato demonstra, acima de qualquer dúvida, que o Conselho Nacional de Educação é mais uma ameaça à cultura nacional e à cultura humana em geral. Mas por quê?
A alegação é a de que o livro seria racista. O racismo em questão não seria nenhuma ideologia em particular. Monteiro Lobato era conhecido por ser um defensor das causas libertárias e do progresso. Seus livros já foram considerados, pela direita nacional, como um manual de comunismo para crianças. Por esse motivo, pediam que fosse afastado delas. O suposto racismo seria a utilização de determinadas expressões que se consideram derrogativas do povo negro brasileiro. Um racismo linguístico. Entre outras coisas, a própria utilização da palavra “negro”.
Esse é um critério introduzido pelos regimes pró-imperialistas em todo o mundo e passa por ser democrático, mas na realidade é exatamente o oposto.
A democracia, nesse caso, deve sempre ser colocada entre aspas, já que não é o regime em que o povo teoricamente decide o próprio destino. É o regime das aparências. Em troca da aparência de decisão política, o povo morre de fome aos milhões. A democracia, no Brasil, não acrescentou nenhum direito real à vida do povo, mas criou mais de 50 milhões de famélicos.
O puritanismo meramente verbal cumpre a mesma função. A mulher brasileira sequer conquistou o direito efetivo de divórcio; vive juridicamente num passado distante. No entanto, tudo o que se condena são as expressões que possam atentar contra a integridade da mulher. A integridade em si, fora do mundo das palavras, não é objeto de preocupação.
A situação do negro é ainda mais grave. Com o novo regime, o negro não ganhou nada. A modestíssima proposta de criar um regime de cotas na universidade produziu uma verdadeira histeria na direita. O negro está fora da universidade, ocupa o lugar da população mais pobre do País e praticamente não tem direito algum. Mas o livro de um dos maiores escritores brasileiro é proibido por ter expressões que seriam, para alguns, pejorativas, como a palavra “negro”. Em suma, o negro pode continuar a ser, na prática, um escravo, mas não pode ser referido nem mesmo na literatura como negro.
O tartufismo, ou seja, a hipocrisia extrema e profissional, que permeia o regime político brasileiro é absolutamente evidente neste episódio.
Não sabemos que grandes causas estariam por trás dessa medida insólita. Sabemos que o livro didático é um grande negócio, o que torna tudo muito suspeito. O que sabemos é que a causa do povo negro nada tem a ganhar com essa hipocrisia.
A proibição de um livro de um autor como Monteiro Lobato nas escolas é um atentado gravíssimo e muito audacioso contra a liberdade de expressão. Eis o fundo político do problema. Quem se arroga o direito de interditar um autor como Lobato coloca-se como tutor da nação inteira. Ganhamos mais um tribunal de opinião no Brasil. Detrás do cínico pretexto de defesa do negro, esconde-se o avanço da tentativa pérfida de cassar os direitos democráticos de toda a população e, naturalmente e em primeiro lugar, dos próprios negros, que já não têm nenhum direito. A chamada lei anti-racismo não é contra o racismo, mas contra a liberdade de expressão. Não é segredo para ninguém que o modus operandi da burguesia e da direita é introduzir suas políticas para estrangular a classe trabalhadora e o povo, disfarçando-as de causas santas e aparentemente unânimes no ataque contra os piores malfeitores. Depois de estabelecer a causa santa e cassar o direito dos malfeitores, com o apoio dos incautos e analfabetos políticos, passam a devorar os direitos das maiorias. Se não se pode usar a palavra “negro” por ser ofensiva para os próprios negros, porque não proibir o uso de muitas outras palavras. Uma vez que o princípio está estabelecido, a proibição campeia e a censura fica estabelecida.
Essa tendência só poderá levar, se conseguir estabelecer-se plenamente, ao maior retrocesso já visto na cultural nacional, que já não anda muito bem, atacada de todos os lados. É uma ameaça e contribui para criar o clima de internato, de reformatório, que os direitistas saudosos da ditadura militar querem impor a todo o País com suas artimanhas ilegais, inconstitucionais e, acima de tudo, ditatoriais, os seus toques de recolher, prisão para estudantes que forem pegos fora da escola e proibições e mais proibições.
É preciso denunciá-los, é preciso lutar contra eles, é preciso derrotá-los.

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