“Na luta contra o Estado de Israel, o Hamas tem de ser apoiado incondicionalmente”

Leia aqui a transcrição da palestra apresentada pelo companheiro Rui Costa Pimenta, dia 2 de agosto, candidato presidencial pelo PCO, sobre a questão da luta que se trava neste momento com o ataque de Israel contra a Faixa de Gaza
PRIMEIRA PARTE

Há uma série de questões que envolve o verdadeiro genocídio que está sendo realizado em Gaza que nós precisamos esclarecer do ponto de vista político.

Primeiro, a caracterização dos acontecimentos. A gente vê na imprensa que se fala em massacre, em uso desproporcional de força. Os mais audaciosos falam em autodefesa de Israel etc. Nós temos que caracterizar muito claramente que o que está acontecendo na Faixa de Gaza é um genocídio, no sentido de que é uma política de extermínio da população palestina naquela região. E a gente até poderia dizer que é de extermínio da população palestina em geral. Primeiro porque o governo de Israel quer o território todo para ele; é uma política conjunta de toda burguesia israelense. E segundo porque aquela região é sublevada contra Israel. Trata-se de não admitir nenhum tipo de insurgência contra a autoridade estabelecida, a ditadura estabelecida sobre a população de Gaza e partir para uma política de extermínio dos inimigos.

Nesse sentido, temos que introduzir uma segunda caracterização. Tudo isso caracteriza uma ação de tipo fascista. Foi o que Hitler e Mussolini fizeram na Absínia, na Tchecoslováquia, Polônia. A política de que se você se levantasse contra a ocupação alemã eles respondiam com o extermínio. Toda conversa de que é uma crise humanitária é uma maneira de encobrir a realidade dos fatos. A verdade precisa ser dita claramente. E a verdade é que temos aqui uma política genocida tipicamente fascista; não pode haver resistência à ditadura israelense. Esse é o sentido geral das coisas que estão acontecendo.

Se tivéssemos dúvida poderíamos pegar os dados que a imprensa capitalista, a imprensa da burguesia, os grandes monopólios da imprensa que ou não mencionam, ou simplesmente colocam em segundo plano; é, por exemplo, que o bombardeiro israelense não apenas mata indiscriminadamente a população, estão bombardeando áreas densamente povoadas, tentando liquidar toda essa população sublevada que apóia o Hamas, não há nenhuma tentativa de atacar simplesmente grupos armados nem nada, atiram em locais onde há prédios, escolas, hospitais, assim como intencionalmente o exército israelense procura destruir toda a estrutura econômica e social da Faixa de Gaza. Destruíram a única usina geradora de energia elétrica, e isso só pode corresponder a uma política genocida, fascista. Destruíram 130 escolas, hospitais, instalações que fabricam alimento para a Faixa de Gaza; fica claro que procuram inviabilizar a vida da população palestina naquela região. Isso corresponde perfeitamente ao que tem dito a direita israelense, o que vem aparecendo em alguns jornais, na internet. Um rabino norte-americano declarou que é preciso acabar com todos os apoiadores do Hamas. Quer dizer,  matar a população de Gaza porque eles apóiam o Hamas. Uma parlamentar do Knesset, o parlamento israelense, declarou que tem que matar as mães dos palestinos, que é para elas não darem mais crias a esses terroristas. A juventude de extrema-direita israelense foi filmada festejando a morte dos palestinos e cantavam um tipo de palavra de ordem que falava o seguinte: “amanhã não vai ter aula em Gaza porque não existem mais crianças em Gaza”. E foi também logo no começo do conflito que vários jovens de classe média alta foram pegos no alto de um monte assistindo como se fosse um espetáculo a destruição da Faixa de Gaza. Isso é importante não apenas para mostrar que toda a direita é fascistóide, a favor da política de extermínio dos oprimidos em geral, mas serve para mostrar que a política que está sendo realizada lá é a política da extrema-direita; que há uma completa identidade entre a extrema-direita e a política que está sendo realizada pelo governo de direita de Israel com o apoio em geral da imprensa burguesa internacional, de inúmeros governos, do governo norte-americano em particular, do imperialismo norte-americano. Temos então essa caracterização. É uma política genocida. É uma matança indiscriminada. É uma tentativa de inviabilizar a sociedade palestina em Gaza. E é uma política fascista. A mesma política que os fascistas usaram nos territórios ocupados na segunda Guerra Mundial. A mesma política, igualzinha, e isso precisa ser dito muito claramente porque é preciso esclarecer o problema.

Uma segunda questão sobre esse genocídio é a análise da orientação política geral que o imperialismo adotou no último período. Nós temos caracterizado que há um recrudescimento da política imperialista. Nós assinalamos o que aconteceu na Venezuela, Ucrânia, a guerra na Síria movida pelo imperialismo, a tendência ao golpe de estado na América Latina e em vários países, o golpe na Tailândia, por exemplo. E não só isso. Temos assinalado o crescimento geral nos países imperialistas da extrema-direita; a Frente Nacional na França, UKIP no Reino Unido e em geral em muitos lugares, análise das eleições européias etc. mostrando que há um recrudescimento da política imperialista e o desenvolvimento do fascismo nos principais países imperialistas, EUA, França, Reino Unido, o militarismo no Japão, tendência acentuada do militarismo também na Alemanha… O que está acontecendo na Faixa de Gaza corrobora e acentua essa caracterização. Porque essa investida não é mais uma investida, uma coisa periódica é um recrudescimento da política do imperialismo em relação à Palestina. Isso se vê pelo caráter de extermínio dessa política. Trata-se de combater de maneira extremamente dura e violenta, brutal a oposição aos planos imperialistas no Oriente Médio.

Aqui cabe uma explicação. A causa fundamental que pode passar despercebida e levar algumas pessoas a concluírem que esse é o fortalecimento do imperialismo, quer dizer, que o recrudescimento da agressividade imperialista seria um sinal de fortalecimento, quando na verdade é um sinal de enfraquecimento diante da crise. A crise de 2008 não foi superada. O Imperialismo se vê numa situação difícil em vários países em crise econômica e com incapacidade de recuperação do capital e, portanto, é preciso atacar os povos oprimidos do mundo inteiro para recuperar essa capacidade, a política neoliberal fracassou e a nova política é tentar impor a política neolioberal a todo custo.

Se o imperialismo estivesse mais fortalecido poderiam fazer isso com métodos “democráticos”; impor uma ditadura, porque os governos neoliberais todos foram uma ditadura, com uma aparência democrática. Agora isso só é possível sobre a base de um ataque bem mais brutal sobre os trabalhadores e povos oprimidos. Essa é uma questão fundamental.

Outro fator é que a ofensiva imperialista resulta de uma momentânea alteração nas relações de força na região. Nós tivemos a guerra na Síria e a Síria era um dos pontos de apoio da resistência palestina; tudo bem que o governo sírio não foi derrubado, mas ficou numa situação muito difícil de compor com os palestinos. Inclusive está sob vigilância do imperialismo. Houve a iniciativa do imperialismo europeu, norte-americano, junto com a Arábia Saudita de reacender (vamos dizer assim) a guerra no Líbano para tentar encurralar o Hezbolah, uma das principais forças da resistência árabe, com maior penetração social, armada, com capacidade e maior treinamento militar etc. Foi o grupo que declarou estar ajudando a resistência armada do Hamas na Palestina. Esse é um fator importante. O mais importante, no entanto, foi o golpe militar no Egito. O golpe derrubou o Hamas do Egito. Muita gente pode não saber, mas o Hamas é parte da Irmandade Mulçumana. Então o Hamas Egípcio que foi caracterizado pelo imperialismo como uma força do mal e essa história foi propagandeada por papagaios do imperialismo dentro da esquerda, como o PSTU, foi derrubado e reprimido duramente no Egito, e agora um dos principais pontos de apoio se não o principal ponto de apoio do governo israelense é o governo egípcio, que seria segundo alguns ingênuos o resultado de uma revolução, porque a Irmandade Muçulmana teria sido derrubada pelo povo. Mas nós vimos algo muito mais comum e conhecido, homens em uniforme, armados dando um típico golpe militar. Agora está claro o objetivo: restabelecer um dos principais pontos de apoio da repressão no Oriente Médio justamente contra setores como os palestinos. Então em torno do Egito se formou uma coalizão, com Arábia Saudita e algumas monarquias vassalas da Arábia Saudita, ou seja, o principal bloco direitista e pro-imperialista da região, defendendo a ação israelense. Essa mudança na correlação de forças abriu o caminho para essa ofensiva massiva, violenta contra a palestina. esses são dos fatores principais que explicam não apenas a oportunidade como a violência desse processo.

Uma terceira questão da análise é qual a posição que devemos ter diante do conflito. Como é de praxe, vários setores de direita ficaram do lado de Israel com a história da autodefesa. Não precisa nem explicar, porque o tamanho do massacre mostra que não há auto defesa nenhuma. E também essa é uma explicação dada pelos nazistas. Invadiam o país e depois falavam que era em nome da defesa da nação alemã e operavam todo o massacre. História muito repetida pelos países imperialista e pelo estado de Israel que é um enclave imperialista no Oriente Médio. Já a posição da esquerda é a posição tradicional humanitária: “bate mas não muito”, “tudo bem que o Hamas é uma organização terrorista, mas isso é um exagero…” Essas posições se bem, logicamente, sejam melhores que da direita, são posições falsas. É um genocídio e a única maneira de acabar com isso não é pregando a paz, pregando a conciliação, mas é preciso apoiar a resistência palestina. É preciso dizer em alto e bom som que tem de ser apoiado primeiro o direito dos palestinos de existir, segundo o direito de resistir à opressão israelense, terceiro de resistir com armas na mão. É um direito dos palestinos. E quem expressa esse direito nesse momento é o Hamas. Por isso qualquer apoio ao povo palestino que não se referencie na luta que está sendo travada pelo Hamas é uma falsidade. É um apoio inócuo. É meramente declarativo, meramente pró-forma. É um apoio que, em certa medida, é totalmente dispensável. A posição que deve ser tomada por qualquer pessoa que seja realmente democrática e pelos revolucionários, é a de que o Hamas tem de ser apoiado contra a ofensiva do estado de Israel. E o Hamas tem de ser apoiado incondicionalmente. O que quer dizer incondicionalmente? Que não se deve colocar condições para apoiar o Hamas. Por exemplo, “eu apoio o Hamas se ele deixar de lado a ideologia religiosa”. Não. Ele tem de ser apoiado com a ideologia que ele tem. “Eu apoio o Hamas se ele parar de jogar foguetes em Israel”. Não. Ele tem de ser apoiado independentemente do que o Hamas tenha feito ou venha a fazer. O apoio tem de ser incondicional. O que está acontecendo lá é uma luta de vida ou morte. Uma luta de vida ou morte entre o povo palestino e o Estado de Israel. O genocídio só pode ser combatido apoiando a resistência armada palestina que nesse momento é o Hamas. Nós identificamos indícios de que a Fatah está se rearmando para oferecer resistência ao estado israelense. Se a Fatah oferecer essa resistência armada, também tem de ser apoiada. Qualquer um que esteja lá lutando contra o imperialismo de armas na mão tem de ser apoiado. E deve ser apoiado incondicionalmente. Da maneira mais completa e mais profunda. Essa é a posição mais democrática. Todas as outras de uma maneira ou de outra favorecem a ofensiva israelense contra a Palestina. Isso precisa ficar absolutamente claro.

continua

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