A verdadeira linguagem do cinema: “Os oito odiados” – A obra-prima de Tarantino

O oitavo filme de Quentin Tarantino supera o que vem sendo feito em Hollywood nos últimos anos

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O gênero faroeste, que fora o principal gênero do cinema norte-americano, andava, havia muito, fora de moda. Poucos filmes de foraoeste foram feitos nas três últimas décadas. Antigamente, até mesmo o cinema italiano – e os quadrinhos – produzia obras bastante interessantes a respeito do desbravamento e colonização do velho oeste americano.

Nos Estados Unidos, John Ford; na Itália, Sergio Leone. Seria agora, a vez de Tarantino? Levando em consideração o último filme dele, diríamos que sim. Para ressuscitar o gênero, era necessário que nada de novo fosse a ele acrescentado. Para recriar o gênero, era preciso que tudo fosse remodelado. O dilema estava entre ressuscitar o gênero e criar um gênero novo, derivado do antigo.

Tarantino fez a escolha certa: ressuscitou o gênero. Nesse oitavo filme do diretor, Os oito odiados, Tarantino trouxe de volta vários motivos dos filmes de faroeste: o caçador de recompensa, o carrasco, o xerife, o mexicano, o pistoleiro, o condenado e, sobretudo, o tiroteio.

Para que se ressuscite um gênero há muito esquecido é necessário que se apresente novidades, mostrando, com isso, que o gênero ainda tem possibilidades: coisas novas a dizer, temas a serem desenvolvidos, etc. Tentou-se fazer isso com o filme Os imperdoáveis. Mas, apesar de esse filme ter ganho o Oscar, pouco despertou o interesse para novas produções no gênero.

Tarantino procurou não apenas reviver o faroeste, como reviver o faroeste italiano. Seu filme começa como os de Sergio Leone: uma longa introdução, demorada, bonita e com a música de Ennio Moriconi. Uma imagem de um Cristo de madeira na neve: um arauto que já nos diz o que esperar do filme e o que esperar da trama.

Um terço do filme, uma hora de duração, passa-se em uma carruagem. Aqui, são apresentadas quatro pessoas. As outras quatro serão apresentadas depois, em uma hospedaria, onde todos se abrigam para enfrentar uma nevasca. Ali, passam-se as outras duas horas do filme. E, apesar de haver apenas dois cenários, o espectador não se sente, em momento algum, claustrofóbico; permanece, sempre, em tensão, a espera dos acontecimentos, acompanhando com atenção o desenvolvimento da trama.

E toda a trama se dá em torno de uma mulher, uma criminosa que está sendo levada a uma cidade para ser executada. E, isso, é tudo o que diremos sobre a trama, a qual recorre mais ao gênero policial, de investigação, do que ao gênero de faroeste.

A grande habilidade do diretor é saber filmar em pequenos espaços, sem que o espectador se importe com isso. Nenhum filme de Tarantino cansa; este, menos ainda.

Tarantino, como Woody Allen, preenche seus filmes com referências a outros e com referências a seus próprios filmes. Seu grande apego aos filmes B, à literatura de banca de jornal e aos gêneros menores faz com que ele se dedique ao faroeste, kung-fu, policial, sub-mundo, etc.; e também que recorra sempre ao humor negro, ao escatológico e à violência. Nesse sentido, os filmes de Tarantino são dedicados às pessoas mais humildes, aquelas que na época de decadência das grandes salas de cinema iam aos ciemas de bairros atrás de entretenimento barato: faroeste, kung-fu, e, posteriomente, o pornô.

Mas Os oito odiados procura explorar todas as possibiliddes do cinema: a direção de filmagem, a fotografia, a maquiagem e, mais do que tudo, a direção de atores. Um filme que se passa, durante três horas, em apenas dois ambientes necessita que os atores conduzam a trama. Tudo depende deles. E deles mais do que da fotografia e do próprio diretor, uma vez que cenário quase não há; iluminação e fotografia são apenas acessórios; e o diretor tem de deixar a coisa toda andar.

São de fato os atores que tornam a trama possível. Todos eles. Todos brilhantes. Mesmo o ator que interpreta o carrasco, sai-se muito bem imitando o ator austríaco dos dois filmes anteriores de Tarantino.

A personagem principal é representada por Samuel L. Jackson, presente em quase todos os filmes do diretor. Um escravo liberto, um negro alfabetizado que serve, no filme, como uma espécie de Sherlock Holmes.

Mas quem mais surpreendeu foi a atriz que interpretou a condenada: Jennifer Jason Lee. Ela sempre foi boa atriz, sempre competente. Mas, na compainha de grande atores e de um grande diretor, superou-se. E superou a todos.

O filme vale por muitas coisas. É um faroeste de tipo italiano: tenso e violento, digno de um Sergio Leone. Conta com uma trama muito bem escrita e desenvolvida, narrada mais pelos atores do que pelo próprio diretor. O resto é acessório, mas acessório preciso, usado porque era preciso ser usado. É cinema de primeira qualidade, pois tem uma grande história, contada com precisão, fazendo dos recursos que o cinema dispõe ferramentas para que ela seja bem contada.

Numa época em que o cinema vem lidando em massa com temas politicamente corretos; em que todo filme tem que ter uma cena de bullying  e uma consequente vigança; em que o cinema procura sempre encaixar uma cena de perseguição (quer de automóveis, quer de naves espaciais); em que o cinema é sempre a luta do bem contra o mal (com é que isso não cansa?), Os oito odiados, que recusa todos esses clichês inúteis, torna-se um dos melhores filmes dos últimos anos.

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