Aborto e zika: a hipocrisia vai resistir à epidemia?

 

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Internacionalmente, a campanha contra o aborto é permanente por parte da Igreja Católica e encontra eco em muitas outras igrejas cristãs, no espiritismo etc. Pura hipocrisia.

Na política não é muito diferente. Nesse caso, reina o cinismo. Às vezes recheado de demagogia. Quando é de esquerda, diante dos movimentos sociais vale o tapinha nas costas e a defesa do direito da mulher, e na televisão diante de milhões de pessoas a negação do aborto. Quando é a direita, nem demagogia. Para eles, aborto deve ser crime hediondo como defende, por exemplo, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB).

Tudo isso mistifica, cria uma cortina de fumaça sobre uma questão que diz respeito a direitos e saúde pública (agora mais do que nunca).

O zika vírus chegou em meio a esta realidade. E o vírus que ao contaminar mulheres grávidas pode causar microcefalia no feto, está se tornando o motor de um amplo debate sobre este problema e, quem sabe, levar a ações concretas como a legalização do aborto.

A epidemia

Começou no Nordeste. A razão inegável: as precárias condições de saúde pública e infraestrutura. O mosquito, aedes aegypti, o mesmo que transmite a dengue e a chikungunya, é típico de áreas onde falta saneamento básico, por exemplo. Falta prevenção. Daí que as mulheres pobres estejam mais expostas ao vírus, às picadas.

Para evitar a contaminação o Ministério da Saúde e especialistas orientam que as mulheres grávidas, ou que queiram engravidar, evitem ser picadas; como? Usando roupas que cubram a maior parte do corpo. Ou evitem ficar grávidas.

Ignoram que a maioria das gestações não é planejada e que no país são altos os índices de estupro, portanto, são altas as chances de uma gestação indesejada também por isso. Além do que, pesquisas recentes afirmam que a transmissão do zika pode se dar também pela saliva e relação sexual. Ou seja, todas as mulheres correm o risco de, grávidas, contrair o zika e ter fetos que desenvolvam a microcefalia ou outras malformações relacionadas.

Até agora autoridades afirmam que chegam a quatro mil os casos suspeitos de microcefalia causadas pelo zika.

O direito das mulheres

Há anos que o movimento de mulheres luta pelo direito ao aborto. Muitas mulheres, sozinhas em sua decisão de interromper a gestação em um verdadeiro ato de desobediência civil, também estão de alguma maneira fazendo o mesmo.

Agora todo o país está discutindo o tema. Ainda com muita hipocrisia e cinismo. Ainda sem ouvir as mulheres, mas é inegável que o assunto veio à tona, está nos jornais e nas conversas.

É o momento de aproveitar a mobilização em torno do problema da microcefalia e legalizar o aborto e tirar, ao menos nesse aspecto, o país do atraso.

 

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