Arquivo do autor:Henrique Áreas de Araujo

Perón e Héctor Cámpora, um caso para análise brasileira

O golpe contra Lula pode se virar contra os próprios golpistas

nacional - henrique - 100216 - perón e cámpora

A história tem dessas coisas. Ela é a melhor professora que podemos ter, ainda que muitos procurem desprezar seus ensinamentos. Um episódio da história argentina pode servir muito bem como reflexão para as recentes investidas da direita golpista contra o PT e Lula.

Após sete anos de uma ditadura militar que teve início no golpe de Estado de 28 junho de 1966, o regime político foi obrigado a procurar uma saída eleitoral para conter a crise diante das massas. Foram chamadas eleições em 1973, mas Juan Domingos Perón, o mais popular líder nacionalista argentino que estava na ilegalidade, foi proibido de concorrer no pleito.

Todo esforço dos militares e do imperialismo era o de manter Perón afastado. Se concorresse nas novas eleições, Perón facilmente ganharia, retornando ao poder.

Em seu lugar, Peron lançou como candidato um elemento da esquerda de seu partido, Héctor José Cámpora, que obteve uma vitória esmagadora sobre o adversário da direita, apoiado pelo regime e pelo imperialismo.

A eleição de Cámpora em 1973 fortaleceu a ala esquerda do peronismo. Cámpora promoveu a organização da juventude peronista e promoveu uma filiação massiva ao peronismo. Desse processo, de dentro do peronismo, surgiu a organização guerrilheira argentina conhecida como Montoneros. Na posse de Cámpora, em maio do mesmo ano, estiveram presentes Salvador Allende, então presidente do Chille, e Osvaldo Dorticós, presidente de Cuba. O governo Cámpora restabeleceu relações diplomáticas com o País, inclusive estabelecendo um acordo econômico para romper o bloqueio norte-americano à ilha.

A tentativa de manter Perón afastado da presidência quase causa um desastre para a burguesia argentina. A situação política no País foi jogada bruscamente para a esquerda.

A crise política se aprofundou, uma enorme mobilização tomou as ruas, presos políticos foram libertados e o governo foi obrigado a promover uma enorme mudança nas Forças Armadas.

Com o aprofundamento da crise política, a burguesia foi obrigada a voltar atrás. Cámpora renuncia em 13 de julho de 1973, novas eleições são chamadas, dessa vez com Perón concorrendo, tendo como vice sua esposa, María Estela Martínez de Perón. Perón se elege com mais de 60% dos votos.

Moral da história: a tentativa da direita de tirar Lula da jogada para poder chamar novas eleições pode resultar em um desastre para a direita pró-imperialista. O maior desejo dos golpistas é dar o golpe e travesti-lo de democrático chamando novas eleições, mas chamar novas eleições com Lula concorrendo é simplesmente devolver o governo ao PT.

Como fazer então? – perguntam os representantes do imperialismo. Cassamos Lula e impedimos de concorrer. Assim como fizeram com Perón na Argentina.

A continuação da história, mostra que a ideia dos golpistas pode não ser tão bem sucedida assim.

Prefeito em cidade de Minas Gerais foi assassinado no Carnaval

Moisés da Silva Gumiere foi eleito pelo PT e se filiou ao PCdoB no final de 2015

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O prefeito da cidade de Chiador, em Minas Gerais, próximo à divisa com o estado do Rio de Janeiro, foi assassinado na terça-feira de carnaval (9/2) enquanto assistia a uma partida de futebol em um clube. Moisés da Silva Gumiere foi eleito pelo PT e no final de 2015 se filiou ao PCdoB. Ele foi executado a tiros por dois homens em uma moto.

Esse tipo de acontecimento geralmente está relacionada com disputas políticas.

A polícia ainda não tem informações sobre os homens nem divulgou a possível motivação para o assassinato.

“A derrocada de Lula significa o fim do PT”

Articulista do jornal O Globo define bem qual o objetivo da campanha da imprensa capitalista

 

Nos jornais, na TV e no Rádio, e até mesmo no que se produz como entretenimento existe apologia à crise política nacional. E nas últimas semanas se deu preferência ao caso Lula.

Está em todos os jornais, em várias matérias, nos artigos assinados, nos editoriais.

Em jornais como O Globo, notícias são replicadas e mais de um artigo publicado diariamente para atacar o ex-presidente petista.

Nesta última semana, entre muitos outros, chamou a atenção o texto de um articulista chamado Gustavo Muller. Em seu perfil é apresentado como: Doutor em Ciência Política pela UFRGS, ex-­consultor e professor na UFSM tem larga experiência nesse tema (seu blog fala de (análise de conjuntura política e econômica, crônicas sobre livros, música e cinema). Natural de Porto Alegre e portador de paralisia cerebral, sempre apostou na meritocracia como forma de competir e atingir objetivos”.

Sem levar em consideração o estilo do escritor, suas metáforas e comparações, ficamos apenas com uma frase que resume em si muito do que está acontecendo no país: “A derrocada de Lula significa o fim do PT”. Este é, em última instância o objetivo de toda campanha persecutória contra o petista.

Destruir o PT é o resultado ideal para a direita nesse momento. Destruindo o PT, através de Lula, com denúncias, forçando escândalos, inventando histórias, quem sai muito fragilizado é o próprio partido. Afinal esse nem é o primeiro dirigente do PT a ser achincalhado publicamente, processado ou efetivamente preso. Antes de chegar em Lula passaram por José Genuíno, João Vaccari Neto, José Dirceu, entre outros. Apesar de tudo isso, o PT continuou como o partido mais forte no país. Capaz de reeleger uma presidenta que todas as pesquisas davam como derrotada e com a popularidade na sarjeta. E isso se deu porque o partido continua sendo um partido de massas e amplamente apoiado pela classe trabalhadora.

Não há como justificar, de outra forma, tamanha dedicação em sujar a imagem, e perseguir uma pessoa. Existe toda uma operação, que pode ser vista a olhos nus, sem maior reflexão a respeito. Basta abrir os jornais, ver a TV.

A imprensa alternativa concorda com o dirigente do PT e afirma que essa é a maior campanha contra uma personagem pública no país desde Getúlio Vargas.

Por tudo isso fica evidente que o PT não tomou o estado capitalista, não se tornou “hegemônico” entre a burguesia, ou qualquer outra coisa como insinuam setores da esquerda pequeno-burguesa.

Ah… se fosse o Lula….

Imóvel em bairro nobre de São Paulo foi comprado por FHC a namorada por 950 mil reais

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Renato Rovai publicou em seu blog no ultimo dia 11/02, uma notícia envolvendo um ex-presidente.

“No dia 2 de dezembro do ano passado, a nova esposa do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Patrícia Kundrát, 39 anos, firmou a compra de um apartamento de 150 metros de área total localizado no bairro de Higienópolis, na altura do número 700 da Avenida Angélica.

O compromisso foi oficializado no 14º Tabelião de Notas, o Cartório Vanpré, localizado em Pinheiros. E o valor da compra foi de 950 mil reais”.

Notícia banal e poderia até estar na coluna social, por se tratar de um bairro nobre da capital paulista. Mas ilustra bem o que está acontecendo nesse momento com a especulação e perseguição ao ex-presidente Lula e sua família.

No caso de Lula a notícia é que ele frequentou, bastante, com sua família, o sítio que está registrado no nome de sócios de seu filho. A denúncia é que Lula estaria ocultando patrimônio. Uma prova seria que Mariza Letícia, esposa de Lula teria comprado um barco e pedido que a entrega fosse feita no sítio, localizado em Atibaia, interior de São Paulo. Ah, para não dizer que não dizemos tudo, tem também a denúncia de que teria sido feita uma reforma no sítio paga pelas empreiteiras Odebrecht e OAS.

Antes disso houve a história do triplex, um pouco mais complexa. Lula teria um triplex em Guarujá, litoral paulista. Ele e sua esposa admitiram a compra de uma cota do apartamento, mas disseram que depois teriam desistido da compra. Aí entra a Bancoop, que é investigada pelo Ministério Público de São Paulo, a OAS que adquiriu o prédio ainda em obras e é investigada na Lava Jato etc. Já dá para imaginar o emaranhado de coisas elaborado pela Justiça e pela imprensa para de qualquer maneira incriminar Lula. Mas essa não pegou muito, apesar de ser notícia até hoje, não houve muita comoção e nesse momento a historinha do sítio tem sido a mais explorada pelo monopólio da imprensa capitalista.

Voltando ao início, o que se procura mostrar é um simples contraponto do modo como a imprensa capitalista e mesmo a justiça trata um e outro ex-presidente.

Ah se fosse fosse Lula e Marina Letícia adquirindo um imóvel por 950 mil reais em Higienópolis (aquele bairro da “gente diferenciada”)!

As histórias criadas pela imprensa capitalista para tentar de todas as maneiras desfazer a imagem e liderança de Lula já ultrapassou o ridículo. E quando se compara o tratamento entre um e outro se vê como a coisa é totalmente desproporcional.

Mein Kampf banido, o debate continua…

A censura só faz fortalecer determinados poderes do regime burguês

Nacional - Juliano - 13-2-16 - Mein Kampf - o debate continua

A recente decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, em cassar o livro Mein Kampf, de Adolf Hitler, tem gerado debates sobre a existência ou não do direito de cassar o livro por conta das ideias que são defendidas nele.

Uma questão parece pacífica: que o livro levanta uma série de ideias abertamente racistas e que defende o extermínio de populações inteiras, negros, judeus, etc. Ideias que se tornaram prática através do mundialmente conhecido nazismo.

O que não está claro para diversos colunistas e grupos de esquerda é se, por conta dessas ideias, o livro deve ser banido das bibliotecas e livrarias.

Esse debate, no caso do Rio de Janeiro, é meio sem sentido, já que o Poder Judiciário já tomou sua decisão e, sem consultar nenhum desses colunistas, tirou o livro de circulação no estado. Independente do que pensam alguns, o juiz já decidiu por todos, e esse é o problema que deve ser debatido.

Em primeiro lugar, existe o direito de expressão. Que, embora façam divagações sobre ele, é o simples fato de dizer o que se pensa. Publicar e divulgar essa ideia da melhor maneira. E só.

Neste direito constitucional não é possível fazer limitação. Trata-se de um direito elementar em qualquer democracia que se preze. Se o direito é limitado não é mais direito, acaba se tornando privilégio. O direito à expressão da burguesia, por exemplo, é muito mais bem utilizado do que qualquer outro direito de expressão.

A divulgação de um pensamento, por mais horripilante e irracional que seja, não deve ser limitada sob nenhum pretexto. Isso porque coloca uma questão essencial: que mente divina irá limitar tal ou qual direito de expressão, essa ou aquela ideia? Existe essa mente? Claro que não.

A censura só faz alimentar determinados poderes do regime burguês.

Agora, independente de quem é contra ou a favor do que defende Mein Kampf, o livro está banido, pelo menos no Rio de Janeiro. Tanto para conhecimento histórico, quanto para criticá-lo, o livro não pode ser consultado. Só não enxerga o fascismo dessa decisão quem não conhece minimamente a história política mundial.

Finalmente, o pano de fundo de todo o debate em torno da censura do Mein Kampf é o verdadeiro caráter do Poder Judiciário brasileiro, que nada tem a ver com um regime democrático e se disfarça dos mais bem intencionados interesses para ir derrubando, pouco a pouco, os direitos democráticos.