Arquivo do autor:Rui Costa Pimenta

Eleja o PT contra Serra e ganhe a ditadura militar que o PSDB quer

Uma parte do eleitorado, desconfiado, não votou nem em Dilma Roussef nem em José Serra. Mas quase 50 milhões votaram no PT e com qual objetivo: ter um governo mais democrático, que atendesse as reivindicações populares ou pelo menos, não ter o governo do PSDB, da direita violenta e ditatorial, dos privatizadores etc.
Foi um completo engano.
Dilma Roussef nem mesmo tomou posse e a situação não poderia ser pior.
A presidenta eleita anunciou sua equipe econômica, anunciando, ao mesmo tempo, um plano de austeridade. A imprensa de direita, que tanto a combate durante a campanha eleitoral, nada disse em contrário. O motivo? É a política da própria direita que está sendo colocada em prática. No início do ano, ressaltamos que José Serra tinha um plano de austeridade, que este era uma exigência dos bancos internacionais e que, se Dilma ganhasse, como tudo já indicava, colocaria em prática um plano semelhante. Nada disso sequer foi objeto de discussão durante a campanha eleitoral, excetudando-se as denúncias do PCO.
Ao mesmo tempo, foi anunciada a privatização total dos aeroportos e a privatização dos correios, escondida durante a campanha eleitoral, foi, como prevíamos, retomada, colocando-se um dos articulares da entrega da ECT como ministro das comunicações.
Enquanto Dilma Roussef mostrava ao eleitorado de do PT e do PSDB como foram ambos feitos de idiotas (sim, porque a política de Dilma é a política de Serra e nem Dilma nem Serra esclareceram seus eleitores sobre os seus verdadeiros objetivos) Lula decidiu colocar em marcha uma operação para estabelecer uma ditadura militar, rasgando a Constituição e pisoteando todos os direitos de centenas de milhares de cidadãos brasileiros, nos morros do Rio de Janeiro.
A população operária do Rio de Janeiro está sob Estado de Sítio não declarado. Foi nisso que os eleitores do PT votaram? Na volta dos militares que foram expulsos do poder pela mobilização do povo?
Direitistas do PSDB e esquerdistas do PT, nas redes sociais , nas ruas, locais de trabalho e bares, se digladiaram para provar que o seu candidato estava mais certo do que outro e era a salvação do Brasil contra tudo o que há de mau no País. Agora, Dilma e Serra, PSDB e PT se unem para aprovar privatizações, austeridade e a ditadura militar, contra os eleitores dos dois partidos que nunca ouviram falar que nenhum dois iria fazer coisa semelhante.
A única força da direita é a presença da esuerda no governo servindo para encobrir a sua política antipopular. Sem Lula, sem José Dirceu, sem os sindicalistas do PT, sem a direção da UNE, sem a direção do MST e da CUT, o massacre que está sendo realizado no Rio pelos militares e o Estado de Sítio seriam absolutamente impossíveis. A direita precisa de uma esquerda para segurar o povo para ela bater.
Lula mandou esses militares ao Haiti para massacrar o povo haitiano. Em todos os momentos denunciamos mais esta barbaridade e ignomínia de colocar o País para fazer o serviço sujo do imperialismo norte-americano e mundial. Agora, a feras treinadas em ferocidade contra os nossos irmãos haitianos, estão matanto da população operária e negra dos morros do Rio de Janeiro.
A direita é fraca. Precisa do PT, de quem empresta o apoio popular, decrescente, para levar adiante a sua política. O PT, apesar de todo o discurso eleitoral, não tem política própria, exceto na sua grande capacidade de fazer demagogia e cooptar as lideranças populares para a politica da direita.
Os apoiadores do PT e do PSDB são, agora, obrigados a enfrentar a liquidação das suas ilusões políticas.

O terrorista e o jornalista

Qual a diferença entre um terrorista e um jornalista? Qual a diferença entre um Osama Bin Laden e um Julian Assange? Qual a diferença entre um homem que combate os invasores da sua pátria de armas na mão e um homem que, em nome da democracia, os combate com a palavra escrita?
Para os líderes do imperialismo, nenhuma.
Julian Assange, editor da página informativa na internet Wikileaks está sendo caçado como um animal feroz, como um cão rábido pela Interpol, pelos governos imperialistas e pelos governos vassalos do imperialismo, da mesma forma que Osama Bin Laden há vários anos.
O imperialismo dito democrático é uma força totalitária, disfarçada detrás de uma fachada democrática. Muitos jovens, que vivem este período de crise e defensiva do imperialismo, podem se equivocar, devido ao seu mimetismo, sobre a sua natureza, mas o que viveram a experiência das ditaduras colocadas en place pelo imperialismo na América Latina não têm com o que se enganar. Pinochet, Videla, Médici, Banzer são nomes que evocam um período de terror que supera qualquer fantasia psicótica. Estes regimes monstruosos foram cria direta e dileta do imperialismo, que alguns teimam em chamar de “democracias ocidentais” ou até mesmo de países “civilizados”. Estes países civilizados e democráticos ou, mais particulamente, seus governos são o comitê da ditadura mundial, a pior ditadura, mais monstruosa que já existiu na face do mundo, a ditadura de poderosos monopólios que dominam a economia não de um país isolado, mas do mundo todo.
A perseguição contra Julian Assange não é uma exceção ou um caso isolado, mas é a demonstração cabal do caráter totalitário da dominação desses países ou, deveríamos mais propriamente denominar do domínio das corporações que controlam esses países e governos sobre os povos que sofrem nos cinco continentes.
Os terroristas que lutam contra estes monstros estão, apesar de toda a mentira venenosa destilada pela imprensa capitalista, plenamente justificados na sua luta. Nenhum povo tem a obrigação de sofrer a dominação terrível, espoliadora e aviltante de governos que representam grandes negócios, apenas porque eles são capazes de fazer uma intensa propaganda a favor deles mesmos. Esta ditadura produziu o pesadelo que ninguém nunca imaginou sonhar de um bilhão de miseráveis. A Osama Bin Laden, o Talibã, o Hamas, o Hezbolah, as FARC e muitos outros grupos pode-se-lhes negar o apoio integral a sua idéias e mesmo a determinadas ações de luta, mas nunca o direito de lutar com os meios necessários e mesmo o apoio geral a esta luta.
A imprensa reacionária e saudosista dos genocidas psicopatas das ditaduras derrotadas na América Latina pela luta do povo, ocultam que todos os lutadores, em todos os lugares, que tiveram a coragem de lutar com armas na mão foram tachados de terroristas. Não precisamos evocar o exemplo dos terroristas da resistência francesa e italiana que, de bomba na mão lutaram contra os respeitáveis Hitler e Mussolini, que foram apoiados na sua ascensão pelos democratas da época, porque nós temos, nós latino-americanos, uma linhagem inigualável de revolucionários que enfrentaram a exploração e a opressão estrangeira ou de cara nacional de armas na mão de Zumbi dos Palmares a José Marti e de José Marti a Ernesto Che Guevara.
Cabe aqui lembrar, no entanto, as belíssimas estrofes do Canto dos Partisans, chamando atenção para o seu chamado ao terror:

Ohé saboteur, attention à ton fardeau, dynamite!
Sabotador, atenção à tua carga, dinamite!

O imperialismo não é apenas o inimigo dos malevolentes terroristas, mas também de governos de centro-esquerda, eleitos de acordo com as regras de um jogo eleitoral viciado como Hugo Chavez, Rafael Correia, Evo Morales e, pasmem, inclusive o moderadíssimo Lula, de que o imperialismo quer ver a queda. Para o imperialismo, o Irã não tem o direito de levar adiante a sua própria política e os países podem ser ocupados de acordo com as suas conveniências econômicas e políticas.
O caso de Julian Assange vem mostrar que não há qualquer limite para o imperialismo e que não há senão uma fachada de liberdade sob o seu domínio de terror absoluto.
O cinismo, a perfídia e a mais absoluta falta de escrúpulos mostra-se na tentativa desajeitada do imperialismo de ocultar seus verdadeiros motivos, acusando o editor do Wikileaks de estupro para poder persegui-lo com o apoio dos tolos de todos os países. Logicamente, não faltarão os defensores da moral e dos bons costumes para dizer que se trata de um caso grave, embora a trama e a conspiração contra esse homem sejam mais que óbvias, gritem aos céus! Mesmo que houvesse causa para pensar que Julian Assange é capaz ao mesmo tempo de arriscar a sua existência por uma causa política e de estuprar, não caberia um julgamento sumário como o que está sendo feito e a caçada humana internacional. Seria prioridade levar em consideração o caso político em questão em qualquer avaliação do suposto caso criminal. É por fatos exatamente como estes que os democratas de antanho instituíram a imunidade do mandato parlamentar, para que criminosos no governo não acusasem os seus opositores de crimes reais ou inventados para calar a voz de uma oposição política com um ataque moral abaixo da linha da cintura. Neste exato momento, o imperialismo e os direitistas estão convencendo os tolos de sempre, que servem de platéia para esta pantomima política macabra, de que devem violar todos os direitos democráticos, inclusive a imunidade parlamentar, em função da corrupção. Os vigaristas e trambiqueiros sinistros, defensores da moral e dos bons costumes e os tolos de sempre que lhes dão ouvidos querem que a moral seja colocada acima da política e os que direitos dêem lugar a uns dez mandamentos forjados nas oficinas dos assustadores fazedores de guerra e destruidores de países. O pretexto, tipicamente facistóide, para ocupar militarmente os bairros operários do Rio de Janeiro não é a luta contra o narcotráfico?
É preciso, sem maiores considerações, defender Julian Assange e o Wikileaks destes criminosos, destes que são os piores criminosos e genocidas que já pisaram a terra do planeta terra. É preciso denunciar a manobra, a conspiração e a trama, urdida em conjunto pelo democrático governo dos EUA e os demais países imperialistas contra o direito dos povos de saber dos seus crimes monstruosos e cotidianos. São tarefas mais que urgentes.
Como corolário e garantia dessa luta, é preciso derrotar o imperialismo e, para derrotá-lo de maneira efetiva, definitiva, é preciso que o mundo venha a ser socialista.

Le chant des partisans

Ami, entends-tu le vol noir des corbeaux sur nos plaines?

Ami, entends-tu les cris sourds du pays qu’on enchaîne?

Ohé partisans, ouvriers et paysans, c’est l’alarme!
Ce soir l’ennemi connaîtra le prix du sang et des larmes.



Montez de la mine, descendez des collines, camarades,

Sortez de la paille les fusils, la mitraille, les grenades;

Ohé franc tueurs, à la balle et au couteau tuez vite!

Ohé saboteur, attention à ton fardeau, dynamite!



C’est nous qui brisons les barreaux des prisons, pour nos frères,

La haine à nos trousses, et la faim qui nous pousse, la misère.

Il y a des pays où les gens au creux des lits font des rêves,

Ici, nous vois-tu, nous on marche et nous on tue, nous on crève.



Ici chacun sait ce qu’il veut, ce qu’il fait, quand il passe;

Ami, si tu tombes, un ami sort de l’ombre à ta place.

Demain du sang noir séchera au grand soleil sur les routes,
Sifflez, compagnons, dans la nuit la liberté nous écoute

A cobertura do PT é essencial para a guerra civil contra o povo

A guerra civil, estabelecida unilateralmente pelo Estado contra o povo do Rio de Janeiro, a pretexto de combater o tráfico, revela de uma maneira indisputável o verdadeiro papel do governo de “esquerda” do PT e do PCdoB.
A brutal, para não dizer selvagem, intervenção militar no Rio de Janeiro jamais seria possível, com a complacência de todas as organizações operárias, de esquerda e democráticas, não fosse a cobertura que o governo federal, encabeçado por Lula e formado pelo PT e pelo PCdoB, lhe dá.
O que está ocorrendo no Rio, sob o governo direitista de Sérgio Cabral, é um verdadeiro golpe militar localizado, colocando a cidade sob estado de sítio e promovendo um massacre contra a população pobre. Se fôssemos acreditar na imprensa capitalista, o massacre seria apenas de capitalistas, assim como as mais de 100 mil vítimas dos exércitos imperialistas no Iraque seriam todos terroristas. Na realidade, é um ataque contra a população pobre do Rio de Janeiro, uma guerra civil contra a população operária.
Esta guerra civil é levada adiante com entusiasmo pelos opositores do PT e de Dilma Roussef nas eleições. Seus porta-vozes são a Rede Globo, revista Veja, revista Época, os grandes jornais etc.
Na eleição, o PT, o PCdoB, ou seja, a Frente Popular de colaboração com a burguesia e seus apologistas apontavam que era para derrotar a direita. Agora, vemos que a direita dá as cartas e o papel dos vitoriosos na eleição, a esquerda, é servir de fachada, de camuflagem, de para-choques diante da maioria da população.
Esta tem sido a realidade nacional há pelo menos duas décadas. Nem o governo Collor, nem os dois mandatos de FHC teriam sido possíveis, nem as privatizações, sem o apoio sistemático que o PT e seus aliados de esquerda, como o PCdoB, lhe forneceram todo o tempo nas organizações de luta dos trabalhadores e do povo em geral, nos parlamentos e nos governos estaduais e municipais.
O Rio de Janeiro ilustra que a idéia de votar em Dilma Roussef e no PT para conter a direita é pura ilusão. A função desta esquerda é justamente permitir a ação daqueles que, com todo o apoio da imprensa e do grande capital, conseguiram menos de 25% dos votos do eleitorado, ou seja, aqueles que não têm apoio algum do povo para realizar estas matanças e outros crimes. O fazem sob a cobertura de quem tem esse apoio, embora o venha perdendo gradativamente.
Os oito anos de governo de Lula acentuaram a paralisia das organizações operárias, estabelecida desde o início dos anos 90. Permitiram que a matança dos sem-terra aumentasse. Sob a fachada de esquerda, os mesmos que governaram sob os militares, sob o governo Sarney, Collor e FHC continuam intensificando os seus ataques contra o povo.
Os políticos do PT e PCdoB, colocados completamente a serviço da burguesia e da direita têm a função de levar muita gente que combateu e até mesmo combate esta direita a servir como um meio de contenção da luta popular contra a direita e a burguesia.
É preciso deixar absolutamente claro que, sem a mobilização popular contra a burguesia, com a contenção e desorganização permanente dos movimentos operários e populares, que são necessários para a política de conciliação com a direita, a direita avança cada vez mais no estabelecimento da sua ditadura contra o povo politicamente desarmado.
O caso do Rio de Janeiro mostra que a reação popular depende da ruptura da política de colaboração de classes, de colaboração com a direita contra o povo, que levam adiante PT e PCdoB.
O caso do Rio de Janeiro é um estridente alerta de que se torna necessário um amplo movimento contra a ditadura virtual que se estabeleceu no País sob a fachada do rosto sorridente de Lula e da estrela vermelha do PT.

Revolta da Chibata: o centenário de um episódio proscrito da história brasileira

Uma das grandes epopéias da história nacional, a Revolta da Chibata foi um dos maiores levantes no interior da Marinha que se tem registro em todo o mundo. Durante quase uma semana, os marinheiros tiveram em suas mãos todo o destino do regime da República Velha

A Revolta da Chibata é um acontecimento de suma importância na história nacional que pode ser analisado e discutido sob diferentes ângulos. Tanto inserida no movimento mais amplo da evolução política nacional, quanto por seu significado histórico, ou ainda por sua grande importância para o movimento de luta dos negros em particular. Falar da Revolta da Chibata é falar também de seu líder, o marinheiro João Cândido, cuja história é indissociável da história do levante.
Um problema importante de método de análise é inicialmente situar a Revolta da Chibata seguindo os acontecimentos políticos do quadro nacional. Vale a pena se destacar esta questão, pois normalmente utiliza-se um método equivocado, de transformar fatos históricos em episódios mitológicos totalmente desvinculados da evolução real das lutas que eram travadas em dado momento. Essa metodologia é típica nas análises históricas, em particular da esquerda brasileira. Um destes casos típicos é a luta de Canudos.
Normalmente, Canudos é apresentado como uma revolta de camponeses no interior da Bahia, como se fosse uma revolta puramente camponesa, o que é, na realidade, uma idolatria dos acontecimentos.
A intelectualidade brasileira se opõe ao reducionismo como método de análise, mas, curiosamente, gosta de reduzir os fatos a elementos meramente abstratos, sem significado.
Canudos na realidade foi um episódio das lutas internas do regime republicano em sua primeira etapa, e deveria ser analisado enquanto tal. Ele cumpriu um papel em sua época. Se a análise não dá conta de interpretar os acontecimentos a partir da luta política de conjunto, ela não é uma verdadeira análise. Não faz nenhum esclarecimento teórico, mas ao contrário, cria um mito, que é o que foi feito com Canudos.
Nessa mitologia, Canudos seria a luta dos camponeses “bons” contra o Exército brasileiro “maldoso”. Muitos se esquecem, porém, que as pessoas que mais defenderam a expedição militar a Canudos foi a própria ala oposicionista ao governo.
O movimento de oposição a Canudos fazia parte da luta contra a consolidação da oligarquia no poder. Esta foi uma confusão histórica real, que de fato ocorreu.
Utilizaremos esse método de análise com a Revolta da Chibata, esclarecendo o papel histórico que ela cumpriu e em que marco se deu esta luta. Para isso, é necessária uma rápida análise do regime durante a República Velha. Tanto o acontecimento de Canudos quanto da Revolta da Chibata, são episódios das lutas populares que se dão no marco de desenvolvimento deste regime político.

Os erros da historiografia nacional

Ao contrário do que apregoa a historiografia no Brasil, a proclamação da República foi um episódio dentro de uma crise revolucionária de grandes proporções. Uma crise revolucionária que começa com o movimento abolicionista, que significa também a abolição do Segundo Império. Esta liquidação teve uma característica revolucionária. Criou uma situação verdadeiramente revolucionária no País.
A história nacional é contada de um ponto de vista anarquista e burguês. A proclamação da Republica aparece na história oficial como uma quartelada de generais ultraconservadores. Uma interpretação da história que se apóia em um romance de Machado de Assis, onde o escritor comenta que o povo não teve participação alguma no processo. Estes historiadores se utilizam desse comentário de Machado para mostrar que o fato não tinha nenhum caráter progressista ou revolucionário, porque “o povo não participou”. Deste ponto de vista, segundo a mitologia anarquista, sem a participação direta das massas, a República não poderia ser considerada de forma alguma um fato progressista. Era na realidade, segundo eles, uma farsa orquestrada pelas elites conservadoras e retrógradas.
Esta interpretação dos acontecimentos é totalmente arbitrária como critério. A observação de Machado de Assis, é uma observação literária, não uma análise científica, não poderia servir de fundamento para nenhuma análise social mais profunda.
Realmente, como observou Machado, a população não participou do episódio de 15 de novembro, mas nem por isso o acontecimento deixaria de ter um significado revolucionário.
Em primeiro lugar, dentro do exército estava agrupada a maior força abolicionista da época. Os positivistas, que eram todos republicanos, formavam uma ala da esquerda bastante radical. Eram conhecidos como a ala jacobina do Exército brasileiro, segundo a historiografia oficial. Ali, a juventude militar, concentrada nas escolas militares, criava um movimento republicano contra o velho regime imperial. Esta foi a base social para o golpe militar de 15 de novembro.
No Brasil é muito comum que o primeiro episódio de todos os períodos revolucionários se manifeste como uma tentativa de conter a revolução. A revolução se desenvolve então depois daquele que seria o fato culminante desta revolução.

As disputas políticas na República Velha

A Revolução de 1930 é um exemplo disso. Se consideramos que ali termina a revolução, com a tomada do poder pelos oposicionistas do governo da República Velha, estaríamos cometendo um equívoco. A tomada do poder é, na realidade, o começo da revolução. Ela se desenvolve a partir dali e vai culminar, embora fracassada, no Levante Comunista de 1935, cinco anos mais tarde. A derrubada do governo foi, deste modo, o primeiro episódio e não o último. No caso da proclamação da Primeira República também. A derrubada do governo de Dom Pedro II foi o primeiro episódio e não o último de todo o período revolucionário.
A partir da derrubada do Segundo Império, inicia-se uma grande etapa revolucionária no Brasil, com vários episódios que serão encerrados com o esmagamento do levante de Canudos, que acontece em 1897. Neste meio tempo, teremos um período de instabilidade revolucionária com lutas diversas. Os governos que se formam, afundam, como ocorreu com o governo Deodoro da Fonseca, que cai em meio a uma hiperinflação provocada pelo ministro das Finanças burguês, Rui Barbosa. Abre-se então um período de luta política sobre o vice de Deodoro, o também conservador Floriano Peixoto, que se transforma aí em líder de toda a ala esquerda do Exército para tentar conter as tendências revolucionárias. Acontece nesse momento uma revolta da armada, que representa uma ala contra-revolucionária. Ela é esmagada por uma contra-revolução que se desenvolve, porém, num sentido acentuadamente revolucionário, à esquerda, apesar dos métodos reacionários.Com este jogo, todo um setor conservador vai contendo a revolução até certo ponto.
Floriano Peixoto conta com a confiança dos militares de esquerda, jacobinos, e entrega o governo pacificamente para os políticos burgueses na eleição que elegeu Prudente de Morais. Isso torna-se o estopim para uma grande revolta dos exércitos, que pressionam para Floriano Peixoto dar um golpe militar e impedir a posse do representante da oligarquia. Tal era o nível de crise que havia na época.

A derrota da ala esquerda do regime

Durante o governo Prudente de Morais, a ala esquerda buscava dar um golpe. O episódio do esmagamento de Canudos é parte do movimento de preparação do golpe contra a oligarquia. A primeira expedição para Canudos é esmagada, a segunda é dirigida pelo chefe maior de toda a ala esquerda do exército, conhecido como “corta cabeças”, o general Moreira César, que tinha momentos antes afogado em sangue o regime em Santa Catarina. Ele era um representante da ala mais ferrenhamente republicana do Exército.
Moreira César segue para Canudos buscando esmagar a revolta que eles consideravam ser monarquista, pois o líder do movimento, Antônio Conselheiro, era monarquista. Após esmagar o levante, o general planejava voltar para a capital da República como o herói nacional que esmagou a contra-revolução, e com essa autoridade, derrubar o governo Prudente de Morais. Ele estabeleceria então a ditadura da ala esquerda das forças armadas.
Os planos, no entanto, fracassaram totalmente, com a contribuição logicamente, de todo um setor da oligarquia que trabalhou ativamente para o fracasso de sua expedição. Moreira César irá morrer em Canudos.
Este acontecimento foi desastroso para a ala esquerda que, organizada nos clubes militares do Rio de Janeiro, ficou acéfala, sem direção. Após muitas tentativas de subverter o governo em uma situação absolutamente delicada, um elemento dos clubes militares toma a iniciativa e planeja o assassinato do presidente. Acaba matando apenas o ministro da Guerra. Estes fatos transcorrem após Canudos já ter sido esmagada pela ala direita, que estava no governo. Deste modo, quando é promovido o atentado, a ação serve como o pretexto ideal para que a ala mais conservadora do exército, aliada com o governo Prudente de Morais, reprima os correligionários de Moreira César, feche os clubes militares e encerrem o episódio com a aniquilação de toda a ala esquerda do regime.
O programa político defendido por esta ala esquerda, era o programa da burguesia nacional, a luta contra a oligarquia do café e a defesa da industrialização que já havia começado no governo Rui Barbosa. A crise e a hiperinflação são o resultado de uma tentativa mal sucedida de promover a industrialização nacional.
Este episódio todo, nada mais é do que a luta de classes, que se encerrou com a derrota do setor mais progressista da burguesia nacional, aprofundando o domínio da oligarquia cafeeira, principalmente de São Paulo.

O predomínio da oligarquia do café

Os três governos que irão se suceder, Campos Sales, Rodrigues Alves e Afonso Pena, irão apenas consolidar a política do Café com Leite, a aliança das oligarquias paulista e mineira no controle do País. Uma vez derrotada a ala esquerda e as tendências revolucionárias dentro do governo, estes três presidentes irão tentar estabilizar o regime em torno do poder da oligarquia, coisa que nunca irá ocorrer pois ela estará permanentemente em crise nos anos seguintes, até sua derrocada final em 1930.
Campos Sales, o primeiro governo depois de Prudente de Morais, pega o Estado totalmente falido, com a economia cafeeira em crise devido à oscilação dos preços no mercado internacional. Sales coloca em marcha um plano de estabilização da economia, comum a toda a oligarquia do café, mas principalmente da paulista e dos bancos ingleses, que são os verdadeiros financiadores dessa oligarquia e os principais beneficiários do café brasileiro.
Para seu plano de estabilização, Campos Sales contrai um empréstimo bastante grande para a época. Cria com isso um fundo, e sob a base deste empréstimo, cria um terreno propício à especulação que, curiosamente, é o que está em vigor novamente hoje no Brasil. Com o empréstimo, o regime consegue conter o aumento da dívida pública, e com ela, a tendência à falência estatal. Sales consegue assim a estabilidade da moeda, que era uma das exigências do bancos ingleses para a contração do empréstimo.
Será sobre a base de uma moeda estável que o capital estrangeiro será aplicado no Brasil, uma vez que o país estava profundamente comprometido com os bancos. A política econômica a partir daí, buscará a crescente valorização do café, o que favorecia por sua vez a oligarquia, mas que era antes de tudo, uma exigência dos bancos ingleses.

A campanha civilista

A política de Campos Sales consistia na diminuição das áreas de plantio. É estabelecido um acordo geral para que isso ocorra, acordo consolidado no governo seguinte. Os estados irão por sua vez garantir a compra da safra anual de café, o que evita a falência e o desenvolvimento da crise da oligarquia. O Estado, dono do café, passa a colocar o produto hiper-valorizado no mercado mundial, que estimula um ganho especulativo que será arrecadado pelos bancos que controlam o comércio mundial de café. Com esta política, a oligarquia consegue superar relativamente a crise do regime político e econômico. A culminação destes acordos vem com o Convênio de Taubaté, que consolida o acordo informal entre os produtores e os governos estaduais.
Neste momento, entra em cena o governo Hermes da Fonseca. Este é um governo dissidente da oligarquia. Fonseca surge na história do Brasil como um governo de direita, mas ele é na verdade uma ala dissidente da direita.
A crise da política do Café com Leite, ressurgiu como resultado direto dos altos custos da estabilização econômica. Enquanto que os produtores paulistas e mineiros embarcaram em movimento de crescimento, toda a oligarquia nordestina e gaúcha havia quebrado, da mesma forma os produtores menores. Isso gera uma revolta gigantesca no interior da própria classe dominante contra a oligarquia do Café com Leite.
Neste quadro, surge o candidato à Presidência Hermes da Fonseca que é um homem do Rio Grande do Sul, foco tradicional de dissidência do regime político. É neste governo que eclodirá a Revolta da Chibata. Seu governo é encarregado por esta oligarquia gaúcha de recuperar sua posição econômica e salvá-la da falência. Este governo expressa a primeira grande ruptura no interior das imensas oligarquias coligadas nacionalmente.
A oligarquia do Café com Leite não se sente em condições de enfrentar esta posição, e durante ainda os preparativos para a campanha presidencial, arruma um candidato esquerdista para representá-la. Neste momento percebe-se que esta é uma política tradicional da direita. Seu candidato será Rui Barbosa, que lança uma campanha civilista, combatendo o fato de Hermes da Fonseca ser um militar. Barbosa aponta o perigo da candidatura militar, que seria a volta dos Moreira César, dos que tinham massacrado Canudos. Após o massacre de Canudos, a oligarquia cafeeira aproveitou-se cinicamente do fato para impulsionar seus próprios candidatos. A máquina de propaganda da oligarquia do café produziu a maior obra literária do Brasil, Os Sertões, de Euclides da Cunha, que é uma propaganda contra os militares da época.
Euclides da Cunha foi um jornalista do Estado de São Paulo, ou seja, um jornal da oligarquia cafeeira paulista. Este jornalista irá escrever uma verdadeira obra-prima, uma das mais importantes peças literárias brasileiras, um épico nacional que descreve o massacre espantoso da população de Canudos.
Apesar da oligarquia não ser favorável aos nordestinos, que considera uma raça inferior – o próprio Euclides da Cunha irá descrevê-los justamente como uma raça inferior –, o escritor faz o elogio do sertanejo contra a brutalidade cega e a violência descontrolada dos militares que esmagaram Canudos.

Os dissidentes do regime

A campanha civilista de Rui Barbosa irá se beneficiar desta propaganda prévia, ele próprio era um dos políticos que se posicionavam contra a violência dos militares em Canudos. Na ocasião, quando Senador, ele prepara um discurso violentíssimo contra os militares. Mostra-se então um fato curioso que, por trás de toda essa campanha humanista, escondia-se a tentativa de impedir que os militares sublevados contra o regime oligárquico pudessem avançar uma posição importante dentro das forças armadas através de seu candidato à presidência. Isso porque, após Canudos, a oligarquia paulista e mineira pôde promover uma verdadeira limpeza nas forças armadas. Ainda assim, não irá eliminar completamente focos de dissidência, como se expressará nos levantes militares de 1922 e 1924.
O fato é que a campanha civilista inicia uma crise enorme no interior das forças armadas, resultado do custo social e econômico altíssimo provocado pelo processo de estabilização do café.
De um modo geral, este período da história brasileira é apresentado como sendo o auge de uma política. O mais correto é apontar que estes três governos que precederam Hermes da Fonseca e estabilizam a política Café com Leite, inauguram o período de decadência do regime oligárquico da monocultura do café. A estabilização foi por si só um fator de crise, pois, como se viu anteriormente, levou à ruína todos os outros setores da economia nacional.
O que ocorreu foi que toda a estrutura de funcionamento da economia brasileira se concentrou em salvar artificialmente um conjunto de monopólios cafeeiros que viviam a política de valorização do café através da especulação nos mercados internacionais. Isso fará com que a crise do café adquira proporções catastróficas em 1929. Essa crise será precedida por um período de intensa especulação, que vai de 1922 a 1939.
Hermes da Fonseca e o governo seguinte são dissidentes do regime. Depois disso, há a volta da oligarquia na presidência com Rodrigues Alves, que é um dos três presidentes do período de estabilização. Ele não chega a assumir o mandato, morre antes e são chamadas novas eleições. Seu sucessor é Epitácio Pessoa, um elemento que fora da ala esquerda do regime, mas que se transforma em representante da oligarquia. Depois dele, haverá um governo extremamente direitista, que é também um governo dissidente, tendo à frente Arthur Bernardes.
Seu caráter direitista irá se definir ao longo do mandato a partir das medidas reacionárias que é levado a tomar contra a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana, e contra as greves operárias que vão de 1917 a 1922. Ele governo o País com o Distrito Federal em Estado de Sítio durante quatro anos. Um governo altamente repressor, que atira nos trabalhadores nas ruas, mas que, curiosamente é um dissidente, representante mais característico da esquerda dos políticos civis.

Uma campanha contra os militares

A Revolta da Chibata é a primeira manifestação mais importante da revolta popular contra o regime da República Velha. Ela se dá em um momento em que as duas alas da oligarquia se chocam nas eleições. De um lado os arquitetos do Café com Leite, de outro, a burguesia falida do Rio Grande do Sul.
Um fato tradicional da vida política no Brasil, é que, dependendo da situação, quando não há uma continuidade clara do regime, as eleições presidenciais podem conduzir o País a uma crise de grandes proporções. A campanha civilista foi um destes momentos, quando a campanha contra a ditadura militar insuflou uma revolta dentro das próprias forças armadas. Da base das forças armadas contra a burocracia militar dirigente. Tanto foi assim, que a Revolta da Chibata explodiu logo após a eleição, em novembro de 1910. Ela desponta influenciada pela intensa campanha oposicionista contra o governo eleito das oligarquias dissidentes.
O protagonista da campanha, Rui Barbosa, era um candidato avulso, não era imediatamente identificado com o regime da oligarquia, embora estivesse a serviço dela. Apesar de Barbosa não possuir apoio popular algum, o fato da oligarquia não ter força para lançar seu próprio candidato leva à utilização deste subterfúgio, colocando a favor dele, todo seu poder financeiro.
Inicialmente um candidato esquálido, ao longo da campanha passa subitamente a ter todo o apoio da imprensa, órgãos pertencentes à própria oligarquia. Sua política era simples. Atacava a direita, denunciando-a como sendo uma direita, atacando os militares pelo simples fato de serem militares. Isso despertou uma tendência à esquerda no eleitorado, e certamente influenciou decisivamente a opinião dos marinheiros que tomariam parte da Revolta, e que estavam já há muito descontentes com o anacronismo da política disciplinar da Marinha. Os marinheiros sentiram o enfraquecimento da cúpula militar, agressivamente atacada pela campanha civilista.

A revolta dos marinheiros, uma manifestação da crise

A revolta, que agora completa 100 anos, explode em novembro de 1910. Rapidamente ela adquire uma importância enorme, é um sintoma claro de fraqueza, de crise, trazendo à tona toda a complexidade das contradições do regime político. É também um sinal claro da impossibilidade de que uma oligarquia, representante dos setores mais atrasados da economia nacional, que está falindo sob o peso da política de valorização do café, seja capaz de transformar o regime por dentro. A principal oligarquia que controla o país não permitirá que isso ocorra.
A eclosão da Revolta revela toda a limitação do poder da oligarquia sulista, pois, na medida em que para controlar o levante esta necessita de um governo mais forte, é obrigada a se apoiar nos setores dominantes da economia.
Do ponto de vista do desenvolvimento histórico da República Velha, a Revolta da Chibata é o resultado mais claro de um progressivo enfraquecimento do regime político. Ela é um dos primeiros sintomas agudos desta crise, e marca os limites do próprio regime dentro do regime político.
Após o episódio da Revolta, a oligarquia cafeeira irá tomar mais cuidado na hora de levar a diante a campanha em torno de suas diferenças com as demais alas, pois o enfrentamento com o eleitorado passa a ser muito mais intenso a partir de então. Tal é a profundidade da crise, que ela irá reavivar todo o movimento operário brasileiro, que havia tido seu último episódio de greves apenas em 1905. Este movimento ressurgirá durante o segundo mandato de Hermes da Fonseca, em 1912. Deste ponto de vista, a Revolta da Chibata será o prenúncio de uma generalização das lutas contra o governo Hermes da Fonseca. Tomada por esta crise, a oligarquia dissidente irá conseguir ainda eleger o sucessor de Fonseca, mas depois disso, perderá o controle do regime novamente para a oligarquia de São Paulo e Minas.
O ano de 1910 prenuncia uma série de acontecimentos políticos revolucionários em todo o mundo, indicados também pela Revolução Mexicana de 1910. O acúmulo destas crises levará a uma crise mundial, à Primeira Guerra, e esta por sua vez, levará à Revolução Russa de 1917.
A partir de 1910 a crise persistirá por mais tempo do que ocorreu até então, do ponto de vista histórico, pode-se situar a Revolta da Chibata como um dos elos de desagregação da República Velha e da mobilização popular revolucionária no período, cuja culminação se dará após a crise de 1929, no início da década seguinte.

As revoltas de marinheiros no mundo

Não foi por acaso que essa crise tenha se prenunciado com uma revolta no interior da Marinha. Os marinheiros são um setor da classe operária dentro das forças armadas. Um marinheiro é um operário, muito mais um operário do que um soldado, que tua diretamente nos conflitos. Ele é um operador de navio, que é funciona como uma fábrica. Dentro de um navio existem uma série de funções técnicas que são funções fabris, alimentação das caldeiras, operação das máquinas, manutenção, limpeza, condução do navio, é essencialmente um trabalho mais técnico do que militar.
Observada de um ponto de vista mais geral, a Revolta da Chibata é a primeira manifestação de um grande levante da classe operária que irá atravessar diversas etapas no Brasil. Entre as manifestações mais importantes deste amadurecimento estará a Greve Geral de 1917.
Do ponto de vista da luta em si, dentro do próprio corpo militar, as revoltas de marinheiros não são uma coisa incomum. A história registra diversos episódios importantes de revoltas de marinheiros. Entre os quatro mais importantes, estará a revolta dos marinheiros russos do encouraçado Potemkin, em 1905, que foi dirigida por um militante do partido bolchevique; a revolta da Marinha francesa, ocorrida no Mar Báltico, em 1917, que foi deflagrada após o alto comando militar francês dar ordens ao navio para atacar a Revolução Russa. Os marinheiros se sublevam antão sob a direção de André Marty, militante do Partido Comunista Francês. Há também a revolta dos marinheiros alemães, que marca o início da Revolução de 1918 na Alemanha; e por fim, a Revolta da Chibata, no Brasil. São estas as quatro grandes revoltas importantes de marinheiros do século XX. Comparando-se estas três revoltas de um ponto de vista político local, e não internacional, a revolta dos marinheiros brasileiros foi a mais importante. Isso pois a Revolta da Chibata sublevou toda a Marinha de Guerra contra o regime. Todo o efetivo principal da Marinha brasileira caiu nas mãos dos revoltosos. No caso do encouraçado Potemkin, foi a revolta apenas de um navio, mesmo o fato do Potenkim ter sido influente na Marinha de Guerra do czar, nunca se transformou em uma revolta generalizada, foi uma revolta importante, mas isolada daqueles marinheiros. Já revolta na Alemanha, foi generalizada e serviu como estopim para a Revolução Alemã. Na medida em que os marinheiros desembarcam na cidade, formam um soviete de operários e soldados e esta revolta se estende por toda a classe operária alemã, mas não toma conta de toda a Marinha.
A revolta dos marinheiros brasileiros é apenas dos marinheiros, mas colocou em xeque, sozinha, o regime político, coisa que nenhuma das outras revoltas famosas conseguiu fazer.

Os levantes militares no Brasil
Quando a Marinha brasileira se subleva no Rio de Janeiro, o regime fica nas mãos dos marinheiros. Não há como o governo fazer qualquer coisa para se opor, o regime político fica colocado em uma situação de extrema fragilidade.
O Brasil naquele momento havia recém renovado toda sua frota de guerra. Uma delegação da Marinha nacional, da qual fazia parte o próprio João Cândido, vai para a Inglaterra receber um conjunto de navios que transformam a Marinha brasileira na mais poderosa da América Latina. Todo o poder desta máquina de guerra cai nas mãos dos revoltosos e o regime fica desamparado. Entre os episódios mais conhecidos da revolta, os marinheiros ameaçam bombardear a capital e a única coisa que o governo pode fazer é capitular diante dessa ameaça. De um ponto de vista mais geral, é crucial esta luta no interior das forças armadas.
A história brasileira registrou inúmeras revoltas militares. A República Velha é marcada por dezenas destas revoltas. Entre as mais importantes, há a revolta dos jacobinos; dos Dezoito do Forte de Copacabana; a Revolução de 1924, onde todo o exército que está em São Paulo se levanta contra o regime; além da própria Revolução de 1930; a Coluna Prestes; mas de todas as revoltas, esta de 1910 é a maior, quando os marinheiros são capazes de colocar todo o regime da República Velha de joelhos e saem totalmente vitoriosos. É a maior revolta militar que o Brasil já teve em toda sua história.
Outro fato de importância que merece ser destacado é que a maioria das revoltas militares é organizada e liderada por oficiais de baixa patente. Os revoltosos do Forte de Copacabana são tenentes, eles planejam a insurreição para levantar todas as guarnições militares do Rio de Janeiro, mas acaba fracassada. A Revolução de 1924 foi dirigida pelo general Isidoro Dias Lopes, um comandante das forças armadas de São Paulo. A Coluna Prestes é dirigida por oficiais de média patente do Exército, Luis Carlos Prestes era capitão de engenharia. Em 1930, quem lidera os eventos são tenentes de alta patente. Em 1935, com exceção de Pernambuco, quem dirige o levante é o sargento Gregório Bezerra. O levante do Forte da Praia Vermelha é dirigido por um capitão. Como fica claro, de um modo geral, os levantes militares de importância no Brasil, são levantes de oficiais. A Revolta da Chibata é um caso singular, foi dirigida por simples marinheiros, e por este motivo, totalmente acabou proscrita na história nacional.

A luta dos negros: capítulos secretos da história nacional

Ainda que todos os revoltosos nos diferentes levantes tenham de um modo ou de outro ficado estigmatizados, nada se compara ao que ocorreu aos marinheiros da Revolta da Chibata. Os oficiais militares organizaram uma verdadeira campanha contra esta revolta, até mesmo riscaram ela da história nacional. Durante muitas décadas, principalmente durante o Estado Novo, e mesmo após o Golpe de 1964, a Revolta da Chibata era um dos assuntos mais proibidos da história brasileira. Quem se arriscasse a falar sobre o caso, ou se atrevesse a escrever sobre o assunto, era interrogado e preso. Os militares e a classe dominante tentaram organizadamente apagar da história nacional a memória desta revolta. João Cândido, que foi expulso da Marinha, nunca recebeu pensão. Apenas recentemente, em 2009, o Congresso Nacional concedeu a ele anistia como “traidor da pátria”, mesmo tendo se passado cem anos desde o episódio. A revolta dos marinheiros foi transformada no episódio mais maldito da história brasileira, o único equivalente deste tipo de apagamento da história que hoje se conhece, foi o episódio do Quilombo dos Palmares, que durante vários séculos foi um assunto secreto no Brasil. A história dos Palmares só irá ser recuperada na década de 1940 por alguns historiadores, militantes do movimento negro. O motivo desta proscrição foi o fato de o Quilombo dos Palmares ter se erguido como uma enorme ameaça ao regime político. Quando acontece a Revolução haitiana, um século mais tarde, o assunto que já era proibido foi tornado maldito. Dezenas de historiadores se uniram para escrever contra o Quilombo, considerando que, caso o movimento fosse vitorioso, o Brasil poderia vir a se tornar um Haiti. Muitos historiadores consideravam que o maior mal que poderia se abater sobre o Brasil eram os negros tomarem o controle do país como ocorreu no Haiti. Este foi por isso, um dos temas mais ocultados da história brasileira até hoje, e, ao lado dele, figura a Revolta da Chibata.
O centro de todo este temor foi o fato da Revolta ter sido organizada e dirigida, não por oficiais, mas pela população pobre, e por isso, um levante verdadeiramente revolucionário. Quem escrevesse sobre isso era perseguido, ameaçado, mesmo preso.

O resgate da memória da Revolta

Durante a ditadura militar, dois jornalistas procuraram o diretor do Museu da Imagem e do Som no Rio de Janeiro e acertaram realizarem a gravação clandestina de uma entrevista com o já bastante idoso João Cândido. Se não fosse por esta iniciativa, hoje teríamos um conhecimento muito vago do que foi este levante e teria se concretizado a vitória dos militares sobre a História. Foi gravada com ele uma fita contendo mais de dez horas de gravação que posteriormente teve alguns fragmentos publicados em livro pelo Museu da Imagem e do Som apenas ao final da década de 1990.
Quem realizou o trabalho inicial de historiografia da Revolta da Chibata foi Edmar Morel, um nacionalista ligado ao comunismo nas décadas de 1950 e 1960. Quando aconteceu o Golpe, em 1964, seu livro, publicado pouco antes, contando a história da revolta, foi proibido pelo regime. Esta reação da ditadura de 64 diante da tentativa de resgate da Revolta da Chibata tanto tempo depois que ela ocorrera é bastante significativa para se entender a profundidade da importância histórica deste levante.
Na Roma antiga, a revolta de escravos comandada por Espártaco também se tornou assunto proibido entre o regime. Foi proibido a tal ponto que tanto os generais que finalmente conseguiram derrotar a revolta quanto os senadores romanos, se recusaram a realizar qualquer tipo de comemoração da vitória, alegando que a vitória de uma legião romana sobre um exército de escravos não era motivo de glória ou comemoração, pois o escravo era um inferior, um ser indigno de atenção. Discursos a parte, a realidade é que todos concordavam que este era um fato para o qual ninguém queria chamar a atenção. A revolta deveria cair no esquecimento o quanto antes, para que não voltasse a se repetir.
Eles se defrontavam com um problema inerente à existência da História. Existindo a memória de um acontecimento, e desde que este acontecimento fosse relatado em livro, em dado momento propício, alguém leria sobre o assunto, e poderia, talvez, ter a idéia sinistra de imitar exatamente aquilo que já fora feito por outros.
Na Idade Média, nos tempos da perseguição ideológica da Igreja, os livros eram proibidos. Hoje, o regime político e seus intelectuais tratam de prostituir tudo. Abertamente, nada é proibido, mas também nada é permitido, há uma campanha de desinformação em vigor.
No passado, os métodos do regime eram o de defender que o Quilombo dos Palmares não existiu, que o negro era um ser pacato, que considerava a escravidão o seu estado natural. Hoje, apesar de ninguém negar o episódio, procura-se desvirtuar seu significado histórico para os dias atuais, para a luta dos negros. Intelectuais escrevem que o conceito é obsoleto, que o que de fato existe seriam gradações de pele e nada mais, que “o negro” não existe enquanto tal, e por sua vez, não existiria uma “luta do negro”. Neutralizam assim o fato indiscutível da opressão racial, que foi transformado em um mito intelectual.

A luta heróica dos negros

Para a população negra, a Revolta da Chibata tem ainda em uma dupla importância. Além de ser uma revolta militar de grande importância, é também um episódio fundamental da luta dos negros pelo fim da opressão. A maioria dos revoltosos era negra, mas a revolta dos marinheiros revelou, na pessoa de João Cândido em particular, a capacidade de um negro de liderar uma revolta dos negros.
Uma das armas ideológicas do combate da burguesia nacional, dos brancos da classe dominante contra os negros, é a propaganda incessante de que o negro é um ser inferior, um estúpido, acéfalo, um incapaz, que teria nascido para servir porque ele é menos desenvolvido que o branco. A Revolta da Chibata mostrou o contrário, causou um enorme impacto porque desfez de maneira espetacular este mito. Na Marinha, os oficiais aparecem sempre como pessoas altamente qualificadas. Sempre foram um setor das forças armadas altamente elitizado, pois requeriam para suas atividades um alto nível de domínio técnico sobre os conhecimento navais, e ainda mais, para um oficial chegar ao ponto de comandar uma esquadra, ele precisaria ser uma figura exemplar na corporação. Se por algum motivo ele fosse um negro, ele precisaria ser um negro da elite dominante, ter freqüentado a escola de oficiais da marinha.
Na Revolta da Chibata ocorreu justamente o oposto. Um negro, um homem simples, um operário, promove uma revolta, mata a maioria dos oficiais que se opõe ao levante, controla toda a esquadra brasileira e comanda as operações da frota inteira como se fosse um almirante que tivesse participado da Primeira e Segunda Guerra Mundiais. Toda a classe dominante fica estarrecida com o profissionalismo que apresenta João Cândido. Um negro retinto, de tipo africano, negroide, que é a parcela mais discriminada dos negros. Tanto ele se comporta e desempenha perfeitamente as funções do almirantado, que posteriormente ele ficaria famoso como o Almirante Negro. Sob o comando de João Cândido, a esquadra rebelde faz uma série de manobras na baia da Guanabara, se aproxima da costa, ameaça o governo, manipula com perfeição os canhões. Era uma verdadeira armada britânica que se defrontava contra o governo brasileiro.

A revolta da civilização contra a barbárie

Esse desempenho tornou a revolta dos marinheiros em um espetáculo pavoroso para a burguesia. Diante disso, o governo não teve alternativa senão ceder em todos os pontos. Junto com os demais marinheiros, João Cândido dominou o País a partir da Capital Federal, fato que demonstrava a enorme envergadura destes homens. Eles se mostravam também pessoas educadas, extremamente civilizadas, fato que chama a atenção pois, em revoltas assim, feitas pela população, o argumento preferido da classe dominante é mostrar o pobre como um selvagem, destruidor de tudo – o que de fato é comum dada a violência de uma revolta –, mas no caso destes marinheiros, nem a imprensa nem o governo conseguiu acusá-los de coisa alguma, de ato algum de barbárie, porque eles se portaram durante a revolta como uma força militar altamente disciplinada sem oficial algum no comando. Uma vez assinado o acordo com eles, os marinheiros ingenuamente acreditaram que o acordo seria cumprido, entregaram então seus navios e se apresentaram ao comando. Tudo o que eles reivindicavam era o fim da brutalidade das chibata nos navios da Marinha de Guerra.
Quem dá uma demonstração de subdesenvolvimento, ao contrário, de selvageria e barbárie, são os políticos e militares da República Velha. O governo não sustenta sua palavra e trai os marinheiros. Quase todos os revoltosos são assassinados. O grupo dirigente da revolta é acusado de alta traição e seus dez principais líderes são atirados em um fosso para morrerem. Quase todos sucumbem por calor e desidratação, apenas alguns poucos sobrevivem, entre eles, o próprio João Cândido. Ele acaba expulso da Marinha e seu nome posteriormente é riscado da história nacional.
Os negros, e João Cândido em particular, aparecem neste episódio como pessoas extremamente evoluídas. Analisando-se detidamente os acontecimentos, o líder da revolta aparece a todo momento como o ser civilizado que de fato ele era. Até mesmo sua ingenuidade em assinar o acordo parece apenas humanizá-lo ainda mais.
Os oficiais brancos da Marinha, ao contrário, aparecem como verdadeiros bárbaros, como criminosos comuns, cruéis, pessoas bestiais e pérfidas que traem o acordo feito lealmente com os revoltosos.
Os marinheiros aparecem como pessoas distintas. Se mataram oficiais no tombadilho das naves, foi porque estes reagiram à revolta e forma mortos em combate. Não houve nenhum tipo de tortura ou qualquer brutalidade da parte dos marinheiros. Enquanto estes maltratados insurretos aparecem na Revolta da Chibata como verdadeiros seres humanos, os altos oficiais e políticos se comportam como animais.
Esse vivo contraste na conduta de ambos os lados ficou também como um símbolo das lutas dos negros, um capítulo a parte no episódio da revolta que apenas engrandece o povo negro ao mesmo tempo em que demonstra a truculência e perfídia da classe dominante.

A grande personalidade de João Cândido

Faz-se necessário ainda algumas palavras a mais sobre João Cândido, que é uma figura que se presta a bastante confusão. Ele era um oficial de carreira na Marinha, um técnico, cabo de esquadra. Conhecia perfeitamente todo o funcionamento da Marinha, por isso foi um excelente comandante da revolta. Era um homem calmo, pacato, não é por acaso que é ele a tomar a frente da revolta. Como muitos líderes que aparecem na história, ele não era uma pessoa impulsiva, só se rebelou quando sentiu que este era o único caminho, era um soldado muito disciplinado, um homem correto. Ao final da vida, na entrevista que é realizada com ele, percebe-se que João Cândido era um homem sereno, que sofreu uma série de injustiças, mas não trazia ressentimentos, tem análises lúcidas sobre os acontecimentos apesar de estar bastante idoso.
Um aspecto contraditório de sua vida aconteceu depois de ter sido excluído da Marinha. Ele não era uma pessoa política, não foi como o marinheiro bolchevique que liderara a revolta do Potemkin, não era membro de partido algum, ou da esquerda, era, ao contrário, um militar de carreira, com todos os preconceitos que qualquer militar também possuía. Quando ele é afastado, perseguido pela Marinha, passou a sofrer todo tipo de dificuldades para arrumar emprego. Foi exercendo profissões cada vez mais humildes até tornar-se vendedor de peixe na costa da Guanabara.
Através de suas relações com outros militares com quem mantivera amizade, acabou convencido de participar da passeata do movimento integralista, ao qual se filia mais tarde. Os integralistas falam da presença de João Cândido ali como sendo um dos feitos dele. Nesta entrevista, ele se mostra um admirador do fascismo, elogia a ditadura de 1964, fala bem de Hitler e de Mussolini, que considerava um homem de pulso. Essas declarações demonstram um atraso político muito grande da parte dele. Muitas pessoas passaram mesmo a considerar, por estes fatos, que seria um erro destacar a importância revolucionária de João Cândido para a Revolta da Chibata. O erro, porém, é destes pretensos críticos. A Revolta da Chibata ocorreu em 1910, e não foi feita em nome do integralismo ou da direita, mas por trabalhadores da Marinha, e teve inequivocamente um conteúdo revolucionário. Foi um grande movimento revolucionário contra as forças armadas e o regime político reacionário da República Velha.
João Cândido era um homem isolado, nunca foi um político, viveu ao sabor dos acontecimentos e interpretava a vida política do país de acordo com a falta de conhecimentos políticos que ele mesmo tinha. Sua adesão ao integralismo não teve nada de criminosa, ele nunca foi um verdadeiro fascista, tinha na realidade, uma concepção romântica do fascismo. Ele considerava que governos deste tipo poderiam ser melhores do que os governos democráticos de fachada que existiam aos montes no Brasil. Os integralistas também nunca estiveram no poder, de forma que se justifica o romantismo do ex-marinheiro. Em essência, essa admiração não tem conteúdo algum, não significa que ele havia se tornado um homem sem caráter, um opressor do povo. Sua posição é também perfeitamente compreensível, dado que João Cândido não fosse um negro de classe média, mas um humilde trabalhador ambulante, e o movimento fascista sempre tivesse procurado manter um apoio plebeu. Muitas pessoas honestas naqueles tempos achavam também que Mussolini ou Hitler fossem defensores do povo. Sua confusão, no entanto, e isso é o fundamental, não muda em nada sua importância dentro da revolta.
Esse cabo de esquadra é uma figura que se destaca na história nacional como uma grande personalidade, e por isso foi capaz de dirigir uma revolta da envergadura que foi a Revolta da Chibata. Ele é uma figura, por isso, que ser deve ser sempre lembrada e homenageada.

Os defensores da moral e dos bons costumes levantam novamente a cabeça

Monteiro Lobato foi julgado impróprio para o ensino pelo seu vocabulário pelo Conselho Nacional de Educação. Esta barbaridade contra a cultura nacional apareceu a muitos politicamente incautos não ser uma manifestação muito óbvia de obscurantismo e de perseguição da opinião como crime.
Seria um caso de racismo ou, mais propriamente, de luta contra o racismo e esta luta justificaria tudo. Um sofisma que encobre uma política de direita praticada por ignorantes e oportunistas da esquerda nacional que tantos serviços preciosos tem prestado à direita.
Não demorou muito para que o verdadeiro conteúdo da questão viesse à tona.
A famosa tesoura da censura, agora em defesa na nossa população infanto-juvenil, barrou o livro “Os 100 melhores contos do Século XX” sob a alegação de pornografia.
Nada poderia ser mais natural que da censura de palavras supostamente racistas passemos à censura de palavras supostamente pornográficas. Mais abstratamente, passamos da censura de determinadas à censura de outras palavras. Em resumo, passamos à censura das palavras.
O que o racismo e a pornografia escritos têm em comum. Ofendem moralmente a um determinado setor da população. Aqui temos, portanto, uma regra, que já está sendo colocada em prática de maneira implacável diante da falta de reação democrática: a ofensa moral é causa para censura.
Quem decidirá o que é e o que não é ofensivo? O povo, a maioria, as minorias, a esquerda? Certamente que não. Quem decidirá e já está, de fato, decidindo é o Estado brasileiro. Estado capitalista, dominada por verdadeiros criminosos políticos, por grandes empresas sedentas de lucro a qualquer custo, um estado que é um inimigo do povo, mesmo disfarçado de “democracia”, mesmo com um governo de esquerda como o atual.
Não pode haver qualquer dúvida de que estamos diante da volta dos defensores da “moral e dos bons costumes” de tempos passados. Naturalmente, eles sempre estiveram aí. Agora, no entanto, estão em plena ofensiva para impor o seu ponto de vista retrógrado e obscurantista. E contam com a ajuda de uma esquerda completamente entregue aos capitalistas para encobrir as suas tradicionais mazelas.
A “moral e os bons costumes” é a moral da direita e os bons costumes da direta. Do setor mais retrógrado, obscurantista e reacionário do País. Quanto a isso, não há qualquer mudança. A única diferença é que foram se reintroduzindo com o apoio de causas progressistas como a luta contra o racismo, contra a discriminação das minorias em geral, da defesa da mulher etc.
Não se poderia esperar outra coisa. A esquerda no governo, PT e PCdoB, nada tinha e nada tem a oferecer ao povo a não ser demagogia, uma vez que os capitalistas estão voltados para atacar cada vez mais as condições de vida materiais do povo dada a magnitude da crise capitalista. E a política da esquerda governamental não é contrariar, mas colaborar com a burguesia. Na falta de matéria, decidiram cuidar do espírito popular com conquistas imaginárias tais como a lei de censura de manifestações racistas. Nesta qustão, o ganho é infinitamente menor que a perda. Os negros não ganham nada de prático e, em troca, recebem uma satisfação moral. Esta situação foi habilmente manipulada por aqueles que têm o poder de manipular para reintroduzir a moral e os bons costumes. A base para esse avanço da direita não é apenas esta política suicida da esquerda governamental, mas uma outra política suicida. Para chegar a um acordo com a burguesia e participar nas delícias do poder foi necessário estrangular todo movimento de luta operária e popular. Ora, o que garante a frágil existência de certas liberdades democráticas é justamente a mobilização popular e mais nada.
Não é mera coincidência, se formos acreditar em geral em coincidência na política, que o atual reitor da USP, o direitista João Grandino Rodas, indicado por José Serra contra a vontade da comunidade uspiana, tenha pedido a expulsão de 21 alunos utilizando como base um decreto da época da ditadura que coloca como critério para a perseguição “a moral e os bons costumes”.
Está na hora de realizar uma ampla campanha em torno da defesa das liberdades democráticas ameaçadas de morte. É preciso abrir este debate em todas as organizações da esquerda, do movimento democrático, operário, popular e estudantil