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EGITO: TRÊS ANOS DE REVOLUÇÃO

Qual é a importância da avaliação da revolução que derrubou a ditadura de Hosni Mubarak, do governo Morsi e do golpe militar?
Nos últimos dias, completaram-se três anos da revolução no Egito. A avaliação desse processo é muito importante para a política mundial e nacional. O ponto de partida é o problema do golpe militar que foi apoiado com entusiasmo pela esquerda pequeno-burguesa como significando o aprofundamento da revolução egípcia. A derrubada do governo Morsi teria sido, supostamente, um fato muito positivo.A mobilização das massas populares que derrubou a ditadura Mubarak não conseguiu desmantelar os fundamentos do regime. Havia uma situação revolucionária em desenvolvimento. Perante o tamanho da crise, a burguesia tentou dar uma saída chamando a eleições, criando uma democracia de fachada. As eleições foram ganhas pelo principal partido oposicionista. A Irmandade Muçulmana tentou estabilizar o regime implantando um governo nacionalista moderado.

A direita percebendo a fragilidade do governo, tentou desestabiliza-lo, com a campanha de denúncia do autoritarismo contra as massas, da crise etc, explorando todas as fragilidades da oposição burguesa nacionalista. O movimento de massas aconteceu sob a condução política da direita e do imperialismo. Os setores que a apoiavam partiam da ilusão de que o fato das massas estarem contra o governo era sempre um avanço revolucionário independentemente da direção política, sem considerar o sentido, os objetivo e as forças em luta. É a transcrição da ideia da democracia para as mobilizações populares como meio de controle da situação política.

Do Diário Causa Operária Online número 3715, de 2 de fevereiro de 2014

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O CAPITAL, SEGUNDA EXPOSIÇÃO NA 33ª UNIVERSIDADE DE FÉRIAS DO PCO

https://soundcloud.com/jornalcausaoperaria/33-acampamento-de-f-rias-o

Em janeiro de 2014, foi realizada a 33ª Universidade de Férias do PCO onde foi realizado o curso O Capital de Marx para cerca de 100 participantes. O curso foi ministrado pelo companheiro Rui Costa Pimenta. Apresentamos aqui a segunda exposição das 10 realizadas.

Veja também a 1ª Exposição:

http://ruicpimenta.com/2014/01/28/curso-o-capital-aula-1-o-materialismo-historico

 

POR UM GOVERNO TRIPARTITE PARA AS UNIVERSIDADES

Aniversários e cerimônias de posse são momentos especiais para a demagogia da burocracia universitária. Quando se completam os 80 anos da Universidade de São Paulo neste 25 de janeiro, ao mesmo tempo da posse do novo reitor Marco Antonio Zago temos aí um bom exemplo.

O centro da demagogia é reivindicar saudosamente as origens da USP, de seus fundadores e seus objetivos norteadores, tais como: formação profissional de elevada qualidade; ser um instituto de pesquisa de ponta; formação de lideranças intelectuais capazes de influenciar os rumos do País e preservação, compreensão e transmissão da cultura.

Tanto o editorial do Estadão, quanto matéria publicada neste mesmo jornal assinada pelo novo reitor mostram contradições fundamentais entre a crise que passa a Universidade, a crise política interna, a incompatibilidade entre as expectativas da população e as soluções que estes divulgam. Como os dois artigos correspondem a uma mesma política não achamos necessário diferencia-los a todo o momento.

Segundo o próprio Zago, ele assume o cargo num momento de fortes pressões: de um lado crescentes demandas sociais; desequilíbrio financeiro (que poria em risco a autonomia universitária) e “corrosão do tecido mesmo da universidade, tanto por movimentos de protesto que têm se transformado em agressões ao patrimônio público”.

Quanto às demandas “sociais” o Reitor defende “ampliar relação com os setores produtivos e governamentais, participar da articulação e implantação de parques tecnológicos”,  ao mesmo tempo que diz que a pesquisa, embora a passos lentos, se mantém devido ao “estímulo” das agências de fomento e defende uma menor burocratização e descentralização nos processos decisórios objetivando uma maior internacionalização da universidade.

Retirando seu caráter confuso e abstrato, aliado aos supostos problemas financeiros propagados  (isso porque a USP tem um PIB maior que vários estados da federação) e o processo real pelo que passa a USP nas últimas décadas, não restam dúvidas  sobre o interesse de aprofundar ainda mais o processo de privatização da universidade entregando este enorme patrimônio aos capitalistas em crise.

Quantidade versus qualidade: uma falsa oposição

Segundo o Estadão “A inclusão social é decerto uma das missões da universidade, mas está longe de ser a única, tampouco a principal. Não é pelo número de alunos que se mede o sucesso de uma universidade e sua capacidade de influenciar os rumos do País, e sim, pelo seu grau de compromisso com os mais altos padrões científicos”. E acrescenta como um dos problemas um “desconfortável aumento de alunos em relação ao número de professores” (!!!) Dizendo que se há 20 anos atrás a proporção era de 10 alunos por professor, em 2012 chegou a 15 por professor.

São ainda mais explícitos: uma das tarefas fundamentais neste momento seria resistir “ao apelo populista” para afrouxar as exigências técnicas para facilitar o ingresso de alunos.

Mais claro impossível: a política do Estadão e seu correligionário Zago é abertamente contra a expansão e universalização do ensino, focando o problema no aumento de alunos e não na falta de contratação de professores. Mostrando ai, uma concepção não apenas elitista, mas retrógrada e equivocada inclusive do ponto de vista “dos mais altos padrões científicos”.

De onde são os melhores jogadores e futebol, senão do País que mais joga futebol? De onde são os melhores enxadristas senão do país com maior número de praticantes? De onde são os melhores cientistas senão onde a média da população alcança de conjunto determinada condição cultural?  Qualquer filósofo da ciência mostra a relação entre fases de desenvolvimento e toda uma luta teórica e cooperação entre diversos membros…

Reconstruir as relações entre professores e alunos, mas como?

Outra contradição gritante está entre a citação feita por Zago de Karl Jasper que diz: “a universidade é uma escola de tipo muito especial. Não deve ser vista apenas como local de instrução; ao contrário, o estudante deve participar ativamente da pesquisa e, desta experiência, ele deve adquirir a disciplina intelectual e a educação que permanecerão com ele pelo resto de sua vida.  Idealmente, os estudantes pensam de modo independente, ouvem criticamente e são responsáveis por si mesmos. Eles têm liberdade de aprender”.

Enquanto na realidade Zago é continuação da ditadura das agências de fomento, que privilegiam sempre interesses econômicos externos ao desenvolvimento próprio da ciência. Enquanto Zago está ai para resistir aos interesses “populistas” de aumentar o número de estudiosos e acelerar o processo de desenvolvimento intelectual do país; enquanto Zago e o Estadão criminalizam os estudantes que buscam participar ativamente de todo o processo educacional, enquanto criminalizam aqueles que pensam de modo independente e almejam se expressar diretamente nos rumos de sua aprendizagem, ou seja, nos rumos da universidade que estudam: que apenas pode se realizar através de uma democracia real, proporcional, dando voz a maioria estudantil que enquanto estudante deve lutar, criticar, decidir sobre o seu processo de aprendizagem de modo a formar uma disciplina intelectual e educação para toda a vida.

Enquanto isso Zago não consegue ultrapassar a arcaica relação separada de ordem-submissão entre professores e alunos, quando diz que  é preciso: “reconstruir as relações entre estudantes e professores, em todas suas dimensões: somos educadores e seremos julgados pelo êxito que alcançarmos”. Ou seja, aos estudantes caberia apenas julgar o leite derramado….

De nosso lado, e a experiência dos 80 anos demonstram a necessidade imperiosa de acabar com esta relação autoritária na Universidade, que apenas poderá se realizar através da extinção do cargo de reitor e a formação de um governo tripartite entre estudantes, funcionários e professores de modo proporcional, garantindo aos estudantes a responsabilidade sobre si mesmos e quebrando o poder dos grandes monopólios, dos governos burgueses sobre os rumos da Universidade e o eterno desvio de verbas para fins particulares.

 

Do Diário Causa Operária Online de 31 de janeiro de 2014

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Abaixo a ditadura militar no Egito

 

 

O segundo golpe militar

Abaixo a ditadura militar no Egito

O suposto golpe “democrático” conduz, sem escalas, ao golpe pinochetista. A ilusão de ótica dos “democratas”

Rui Costa Pimenta

As Forças Armadas egípcias lançaram, nesta quarta-feira, 14 de agosto,  a segunda etapa do golpe militar de 30 de junho. O alto comando militar anunciou que iria retirar os manifestantes das praças e desocupar as ruas com o uso da força. A Irmandade Mulçumana declarou que não iria cessar as manifestações.

A partir da madrugada, as forças militares e a polícia começaram o ataque contra os acampamento da Irmandade Mulçumana na Praça de Nahda e na Mesquita de Rabaa al-Adawiya próxima a Cidade Nasser.

Até o momento, o próprio governo dava conta de 149 mortos e mais de 1400 feridos, sem mencionar o número de presos. Dois jornalistas estrangeiros foram mortos, dando a entender que o número de mortos é muito maior. A própria Irmandade Mulçumana fala em milhares de mortos e um número muito maior de feridos.

10 cidades foram colocadas sob Estado de Sítio. As barricadas construídas pelos manifestantes foram derrubadas por tratores de grande porte e os acampamentos foram queimados. Na mesquita, centenas de mulheres e crianças se abrigaram das balas do Exército e da Polícia.

O golpe que foi anunciado pelos ingênuos de plantão e pelos manipuladores políticos de sempre como sendo o “braço da revolução” popular, revela-se, agora, claramente, como o braço da reação política egípcia.

A inevitabilidade do segundo golpe

A impossibilidade de manter as aparências de democracia eram já evidentes no momento mesmo do golpe. A Irmandade Mulçumana é a maior força política organizada do país. Para manter o propósito do golpe, que era o de afastá-los do poder, seria obrigatório reprimir toda e qualquer resistência do partido de Morsi.

A resistência dos partidários do presidente deposto na ruas colocou em pauta o cenário mais crítico possível. Sem resistência alguma todo regime parece normal e democrático.

Os militares tinham plena consciência, cerca de um mês e meio depois do golpe, que a situação que havia permitido o golpe para derrubar o governo de Morsi estavam se invertendo completamente e que as manifestações estavam servindo como um meio para superar a confusão inicial e criar um movimento contra a ditadura que superasse o âmbito da influência da Irmandade. Finalmente, depois de toda a cortina de fumaça em torno do golpe, feita pelos intelectuais liberais e esquerdistas e organizações pequeno-burguesas, um número crescente de pessoas estava chegando a conclusão óbvia de que a repressão e proscrição do maior partido político do país pelos militares era, de fato, uma ditadura militar.

Os militares não podiam se dar ao luxo de esperar o crescimento deste movimento e foram obrigados a agira para evitar derrota do golpe militar.

Quem sempre esteve detrás do golpe?

O golpe foi dado pelo alto comando militar egípcio. Somente este fato já deveria explicar tudo. Os militares egípcios tiveram a sua fase revolucionária com o golpe que derrubou o Rei Faruc em 1952 até a morte de Gamal Abdel Nasser em 1970. A incapacidade revolucionária do nacionalismo burguês egípcio levou a seu esgotamento, claramente caracterizado na presidência de Anuar El-Sadat. Os militares passaram do nacionalismo ao papel de um dos principais pilares de sustentação da dominação imperialista na região justamente com Israel e a Arábia Saudita.

Durante a ditadura militar, o Egito tornou-se uma grande base de Guantanamo no Oriente Médio, rota obrigatória dos vôos clandestinos da CIA. Com tal pedigree, não é preciso muito para saber o verdadeiro sentido do golpe dado por esta organização.

Mas, mesmo sendo muito, isso não é tudo. Imediatamente após o golpe, o governo da Arábia Saudita, principal pilar da reação política imperialista na região, saudou os militares com uma contribuição de U$ 6 bilhões. Em resumo, o golpe foi orquestrado por Washington, financiado pela dinastia Saud e colocado em prática pelos militares com a ajuda dos seus sócios capitalistas locais. Para não deixar dúvida, o presidente da suprema corte foi indiciado como presidente, e El-Baradei, conspícuo agente do EUA, alto funcionário da ONU, no sensível setor de energia nuclear, foi indicato como primeiro-ministro e depois como vice-presidente.

Guerra civil

O imperialismo mundial apoia o golpe com cautela. O golpe tem que mostrar que é capaz de controlar a situação, o que está muito longe de ser uma certeza. Os militares somente serão capazes de se manter no poder por meio de um aprofundamento da repressão. Não há dúvida alguma de que a situação egípcia está à beira da guerra civil.

Vídeo da palestra-debate: o papel histórico de Graciliano Ramos e a Literatura Nordestina dos anos 30

Graciliano Ramos, por Hugo Braz

Graciliano Ramos, por Hugo Braz

Literatura e Política – O papel histórico de Graciliano Ramos e a Literatura Nordestina dos anos 30 – YouTube.

Palestra realizada por Rui Costa Pimenta por ocasião dos 60 anos da sua morte, em março de 2012 em S. Paulo.