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CAUSA OPERARIA – ÚLTIMA EDIÇÃO

CAUSA OPERÁRIA Nº 887, DE 13 A 19 DE FEVEREIRO DE 2016
Arquivo do autor:Rui Costa Pimenta
PCO promove palestra sobre o nacionalismo e a Venezuela
Em decorrência da morte do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, o debate sobre o nacionalismo é mais que necessário para compreender a situação política na América Latina.
O Partido da Causa Operária, no próximo dia 6 de abril, irá realizar debates a partir do tema “A política revolucionária diante do nacionalismo”.
A palestra-debate discutirá em duas palestras, o papel do nacionalismo burguês nos países da América Latina e sua relação com a classe operária e o imperialismo.
A atividade será dividida em duas palestras, uma que será apresentada na parte da manhã, às 10h30 e terá como tema, “O trotskismo e o nacionalismo”, que tratará do programa revolucionário sobre a questão do nacionalismo nos países atrasados e será ministrada pelo companheiro Rui Costa Pimenta, presidente do PCO e editor do jornal Causa Operária.
A segunda palestra ocorrerá na parte da tarde, às 15h, com o companheiro Alejandro Acosta, membro da redação do jornal Causa Operária. O tema será “Hugo Chávez e as perspectivas políticas do nacionalismo latino-americano”.
Estas duas palestras pretendem abordar os diversos temas que envolvem a questão do nacionalismo a partir de uma análise marxista relacionando o desenvolvimento da luta de classes dos povos latino americanos.
A palestra-debate “A concepção marxista do nacionalismo nos países atrasados” acontecerá em São Paulo, na Associação Japonesa Tochigi, Rua Capitão Cavalcanti, 56 – Vila Mariana, próximo à estação de metro Vila Mariana.
No intervalo será realizado churrasco, com venda de convites para financiar a atividade.
Para obter maiores informações sobre esta e outras atividades ligue para o telefone (11) 5584-9322 ou envie um e-mail para o endereço eletrônico [email protected]
Publicado em atividades, mundo
Não à agressão imperialista
A tensão militar na Península da Coreia escalou aos níveis mais elevados desde o final da guerra de 1950-1953. O imperialismo norte-americano e o governo marionete da Coreia do Sul estão realizando as maiores manobras militares anuais dos últimos anos, batizadas de Key Resolve, envolvendo 10.000 soldados sul-coreanos e 3.500 norte-americanos. Estas manobras se somaram a outras que estavam em andamento desde o ano passado, Foal Eagle, com o claro objetivo de ensaiar uma invasão à Coreia do Norte usando armamento nuclear – estão envolvidos aviões B-52, capazes de carregarem armas nucleares, um portaviões, caça-bombardeiros F-22 Raptor, um destrutor capaz de interceptar mísseis, os B2 que têm lançado bombas falsas em localidades próximas à fronteira e há preparativos para aumentar as manobras neste mês a partir das ilhas fronteiriças do Mar Amarelo.
À nova escalada das provocações militares se somam o reforço das sanções econômicas e da campanha propagandística na imprensa burguesa em níveis de histeria não vistas desde o início da chamada “guerra ao terror” no início da década passada.
O governo da Coreia do Norte anulou o armistício de cessar fogo de 1953, cancelou as conversações para a desnuclearização da Península, eliminou a linha telefônica direta por meio da Cruz Vermelha, ratificou o estado de guerra e declarou que poderia atacar, de maneira preventiva, as bases norte-americanas no Pacífico, como a localizada na ilha de Guam. A entrada dos funcionários sul-coreanos no complexo industrial de Kaesong foi suspensa. Todas as instalações nucleares foram reativadas, inclusive o reator de Yongbyon, o principal do País, que tinha sido fechado em 2007.
A escalada belicista promovida pelo imperialismo
O imperialismo norte-americano é responsável pelo fato de não ter sido assinado um tratado de paz na Península da Coreia, desde o Armistício de 1953. Em flagrante violação à soberania norte-coreana, os imperialistas têm feito mais de 200 voos de reconhecimento anuais, crescentes ameaças militares e sabotagens econômicas que chegam ao sequestro de navios comerciais que importam grãos ou exportam carvão. A intensidade das provocações aumentou com George Bush Jr. na presidência dos EUA e de Jung Hong-won como primeiro ministro da Coreia do Sul, jogando no lixo os acordos com a administração Clinton, quando se tinha chegado perto do estabelecimento das relações comerciais e diplomáticas. A nova política passou a priorizar o controle direto do petróleo do Oriente Médio, como base para uma nova escalada da especulação financeira, e aumentou as agressões contra a Coreia do Norte.
A Coreia do Sul tem desenvolvido um programa nuclear secreto desde 1975, com o apoio dos EUA, apesar de ter assinado o tratado de não proliferação nuclear até 2000, e que pode ainda estar ativo.
As medidas adotadas pelo governo norte-coreano são basicamente defensivas, direcionadas a defender a soberania nacional perante a enorme superioridade militar das forças agressoras. O exército norte-coreano não dispõe da tecnologia necessária para guiar mísseis que possam atingir com sucesso o território dos EUA e, é possível, que também ainda não tenha desenvolvido a miniaturização suficiente para colocar numa cabeça dos mísseis de longo alcance uma tonelada de material nuclear. Em contrapartida, dispõe de um arsenal capaz de infligir enormes danos à Coreia do Sul, onde estão estacionados 30 mil soldados norte-americanos e ao Japão, onde estão estacionados 40 mil. A capacidade de autonomia de combustível dos tanques não passa dos 30 dias.
O foguete que foi lançado com êxito em dezembro colocou em órbita um satélite dentro do programa de desenvolvimento de satélites meteorológicos, de comunicação e de investigação científica. Da mesma maneira, a enorme dependência energética levou o País a desenvolver a geração de energia elétrica a partir das centrais nucleares. O teste nuclear subterrâneo realizado em fevereiro se seguiu aos testes realizados em 2006 e 2009 e 2012, e teve como principal objetivo dar uma resposta à escalada da agressividade militar nas regiões próximas fronteiras. Em 2010, manobras de menor envergadura levaram o exército a afundar uma corveta sul-coreana, após vários avisos por ter invadido e ter disparado foguetes contra o território.
A atual presidente da Coreia do Sul, Park Chung-hee, é filha do ditador que permaneceu no poder desde 1961 até 1973. Ela prometeu durante a campanha eleitoral retomar as negociações com a Coreia do Norte, mas acabou priorizando a política do imperialismo norte-americano na região que ao mesmo tempo lhe serve para desviar a atenção do aprofundamento da crise capitalista no País.
Uma luta do bem contra o mal?
A imprensa imperialista tem tentado apresentar a nova escalada militarista na região como uma luta do bem contra o mal, do mocinho imperialista contra o demônio comunista. Na realidade, não há nada disso.
O mundo contemporâneo se encontra dividido entre os países imperialistas e os países dominados pelo imperialismo. Por esse motivo, o dever dos revolucionários é defender os países atrasados, independentemente do regime, contra a agressão imperialista. Está na ordem do dia uma campanha internacional contra a agressão imperialista à Coreia do Norte.
O problema não é de ordem ideológica, mas econômica e política. A Coréia do Norte é um país atrasado e, apesar de não ser um país socialista como apregoam muitos, é um país onde foi expropriado o capital e, por esse motivo, pode ser considerado como um estado operário deformado. Em todo caso, trata-se de um país que se subtraiu parcialmente ao domínio do imperialismo sobre o mercado mundial.
Exatamente o mesmo debate acontece em relação a Cuba. Segundo setores da esquerda, como o PSTU, devido a Cuba não ser socialista não haveria a necessidade de defendê-la. O mesmo acontece em relação ao chavismo e aos demais regimes nacionalistas. A incompreensão teórica do problema é tão grande que o PSTU e vários outros grupos acabam ficando, de maneira recorrente, no campo da direita. Essa política representa uma traição à classe operária por posicionar-se do lado do inimigo número um da classe operária mundial, o imperialismo e isso a pretexto de combater uma burocracia operária ou o governo da burguesia nacional de países oprimidos pelo imperialismo. Até quando a sanguinária ditadura militar argentina do general Leopoldo Galtieri ocupou as Ilhas Malvinas, os revolucionários ficaram contra o imperialismo britânico no conflito. Este é o programa revolucionário do trotskismo.
O aumento da campanha da propaganda imperialista se deve a que os norte-coreanos reagiram às agressões, e por esse motivo foram transformados, pela propaganda imperialista, em agressores. A realidade é exatamente a oposta. De qualquer maneira e em qualquer circunstância, para os revolucionários isso não faria a mínima diferença. Toda guerra imperialista contra um país atrasado nunca pode ser defensiva. Mesmo se a Coreia do Norte tivesse começado um ataque, o que NÃO aconteceu, ela estaria se defendendo da ameaça imperialista. Na luta entre países opressores e países oprimidos, a luta defensiva está do lado dos países oprimidos.
A burocracia norte-coreana, dominada pelo exército, sempre buscou a assinatura de um tratado de paz com a Coreia do Sul e o imperialismo, o reconhecimento diplomático e o estabelecimento de relações comerciais, assim como a suspensão das sanções. Essa política de conciliação foi dominante a partir da década de 1990 com a derrubada da União Soviética e o aumento das reformas neoliberais na China. O País conta com apenas 18% do território agricultáveis e possui escassos recursos naturais o que tem levado às dificuldades para a autossuficiência em alimentos, apesar de ter desenvolvido uma indústria autárquica, principalmente na indústria pesada.
Na prática, trata-se da mesma política seguida pela maioria dos países nacionalistas que buscam acordos com o imperialismo para poder impor a própria política no País. O problema é que o aprofundamento das contradições nem sempre o permitem. Por outra parte, as agressões imperialistas normalmente têm conduzido ao fortalecimento da unidade nacional em torno aos nacionalistas ou à burocracia.
Quais são os objetivos imperialistas por trás da sabotagem do tratado de paz?
De acordo com o parágrafo 60 do Armistício de 27 de Julho de 1953, todas as tropas estrangeiras deveriam ter sido retiradas da Coreia. Imediatamente depois, em 8 de Agosto de 1953, os EUA assinaram o “Tratado de Defesa Mútua” com a Coreia do Sul, legalizando a presença militar norte-americana. Em 21 de junho de 1957, sabotaram o parágrafo 13 do Armistício que bania a introdução de planos operacionais, veículos armados, armas e munições na península coreana, por meio de outros países, introduzindo não somente um gigantesco arsenal bélico, mas mais de mil armas nucleares, transformando o País no maior arsenal nuclear do Extremo Oriente.
O imperialismo norte-americano tem usado o estado de guerra existente sob o Acordo de Armistício com o objetivo de manter e fortalecer a presença militar na região, incluindo as alianças com a Coreia do Sul, o Japão, a Austrália e outros países. As agressões levaram a frequentes conflitos militares de menor envergadura e tinham como objetivo justificar essa política, como os que aconteceram em Panmunjom e no Mar Oeste, incluindo o incidente da Ilha de Yonphyong. As derrotas no Afeganistão e no Iraque e a queda dos lucros do complexo industrial militar encorajam o aumento de um clima bélico na região para onde o Pentágono deslocou a metade do orçamento militar.
O aumento das sanções pelo Conselho de Segurança da ONU tem como objetivo asfixiar o regime da Coreia do Norte e avançar no controle da região contra as potências regionais, a China e a Rússia, e o imperialismo japonês.
Coreia do Norte: foco do acirramento das contradições em Ásia Pacífico
O aprofundamento da crise capitalista mundial tem levado ao acirramento das contradições do imperialismo com as potências regionais e com o Japão, o que acrescentou um potencial altamente explosivo no cenário internacional.
A vitória da direita, de lavada, nas eleições de dezembro foi promovida pelo impulso da ultradireita que marcou a pauta da campanha e saiu de zero deputados para 31. Como saída à crise galopante estão colocados o aumento dos ataques contra as massas, por meio de uma política de força, que seria promovida pelo ressurgimento do militarismo fascista, e uma política exterior abertamente belicista, que inclui o confronto aberto com a China, o desenvolvimento da bomba nuclear, a criação de um exército (hoje é um órgão de defesa) e, principalmente, a revitalização da indústria bélica que teria como clientes naturais os países da região. As multinacionais japonesas têm se expandido aceleradamente na região após o colapso capitalista de 2007-2008 e o desastre de Fucuxima, disputando mercados com as multinacionais norte-americanas.
Obviamente, essa política bate de frente com os interesses do imperialismo norte-americano e dos governos da China e da Rússia.
Os EUA tentam aplicar a qualquer custo a política elaborada em 2002, “full spectrum dominance”(domínio total do espectro, que implica no controle militar total de todas as regiões do mundo. A escalada da agressividade militar contra a Coreia do Norte, com o apoio do governo marionete da Coreia do Sul, visa conter o ascenso das potências regionais e do imperialismo japonês, protegendo as próprias posições e mercados que foram conquistados na Segunda Guerra Mundial.
A China e a Rússia estão armadas até os dentes e têm condições de infligir fortes danos em um enfrentamento militar com o imperialismo. Ao mesmo tempo, a desestabilização da região pode promover o desenvolvimento das tendências revolucionárias em centros operários importantes.
A estabilidade da Coreia do Norte, a desnuclearização da península coreana e a manutenção como uma zona tampão é de enorme importância estratégica para o governo chinês. Isso explica que tenha aderido aos pacotes de sanções aplicados pela ONU em 2006, em 2009, em 2012 e no mês passado em seguida aos novos testes nucleares, mas sem isso ter implicado na diminuição das relações comerciais.
Além do perigo do contágio está a questão de que se o País fosse anexado pela Coreia do Sul, ficaria frente a frente com o exército norte-americano. Principalmente por esses motivos, a China se tornou o maior fornecedor de alimentos e petróleo à Coreia do Norte à custa de um superávit comercial crescente que tem sido subsidiado. Segundo estimativas do Banco Mundial, desde o início de 1990, a China foi responsável por quase 80 % das importações de energia, além de grande parte dos bens de consumo e dos alimentos.
O potencial contágio da crise na Coreia do Norte
Em 1987, a Rússia eliminou os subsídios às exportações para a Coreia do Norte e, em 1990, eliminou o comércio baseado na troca de mercadorias. Em 1992, a China fez o mesmo provocando o aprofundamento da crise econômica no País, principalmente devido à dependência energética. A crise dos chamados Tigres Asiáticos impediu que as medidas de liberalização, o chamado “socialismo de mercado” inspirado no modelo chinês, adotadas pelo governo liderado por Kim Il-sung, decolassem devido a que os investimentos imperialistas foram concentrados na China. Entre 1990 e 2002, o PIB se reduziu em mais de 30%.
Em 2002, o governo decretou novas medidas que incluíram a liberalização de preços e salários, uma forte desvalorização da moeda local (won), o fim dos subsídios às empresas, e a formação de Zonas Econômicas Especiais, sem a necessidade de participação estatal de 50%, e da região turística do Monte Kumgang. Os salários não acompanharam os aumentos dos preços e a pobreza e as diferenças sociais aumentaram.
O complexo industrial de Kaesong entrou em operação em 2004, faturou US$ 470 milhões no ano passado e emprega 53 mil trabalhadores norte-coreanos que recebem, em conjunto, US$ 93 milhões. As empresas sulcoreanas, com as multinacionais imperialistas por trás, pagam um salário mínimo de US$ 60. A estimativa do principal arrendatário do complexo, a Hyundai é que a Coreia do Norte possa vir a receber em torno a US$ 1,4 bilhão por ano em impostos quando o complexo estiver funcionando de maneira integral.
Após o embargo norte-americano de 2006, em represália ao primeiro teste nuclear, aumentou a presença japonesa.
Em 2009, a população foi expropriada por meio da criação de novas cédulas que retiraram três zeros dowon, mas limitaram as trocas a 100 mil won (menos de US$ 40 no mercado paralelo). Os protestos levaram a aumentar o limite para 500 mil won em depósitos bancários 200 mil won em dinheiro.
Foi aberta uma Zona Especial na fronteira com a China e outra mais próxima ao Japão. Duas ilhas foram arrendadas a capitalistas chineses. Foi criado um banco de investimentos com capital nacional e estrangeiro.
A Coreia do Norte representa a ponta do iceberg da desestabilização de uma região de importância fundamental para o capitalismo mundial, Ásia Pacífico. A administração Clinton calculou que uma nova guerra na Península da Coreia custaria um milhão de mortos, dos quais em torno a 100 mil seriam norte-americanos. Os custos imediatos seriam de US$ 100 bilhões e os posteriores de pelo menos US$ 1 trilhão, e aumentariam se fossem atualizados.
O contágio provocado pela revolta das massas coreanas, que poderia ser detonado por uma guerra, tem o potencial de elevar as tendências revolucionárias em todos os principais países da região.
Diante desta situação, a classe operária mundial deve denunciar a agressão imperialista, desmascarar a cínica propaganda dos agressores e se mobilizar contra as ameaças de guerra do imperialismo contra a Coreia do Norte.
matéria do Diário Causa Operária de 4 de abril de 2013
Publicado em mundo
Por que a questão do aborto é a questão central?
Rui Costa Pimenta
O dia internacional das trabalhadoras, 8 de março, impõe a discussão de todo o programa de lutas das mulheres, desde as reivindicações salariais e de emprego, condições para a maternidade, até os direitos democráticos como divórcio e o aborto.
Para o PT e demais partidos da Frente Popular, a questão central é a defesa da Lei Maria da Penha, supostamente uma enorme conquista feminina. Seu objetivo é, cristalinamente, eleitoral. O mesmo ocorre com toda a discussão em torno das cotas para negros na universidade. A frente popular, PT e PCdoB, com apoio dos seus aliados de direita do PMDB, buscam o voto destas parcelas da população contra a oposição direitista do PSDB e do falimentar DEM utilizando-se de medidas que são pouco mais que pura aparência.
Outra ala da esquerda, que se coloca detrás da bandeira da chamada Frente de Esquerda, como Psol, PSTU, PCB e uma miríade de pequenos grupos que atuam dentro do Psol e da Conlutas, colocam em primeiro plano as reivindicações de salário e emprego. É a versão esquerdista da mesma política da frente popular. Também se trata de pura demagogia, uma vez que não há qualquer ação organizada em torno de nenhuma destas reivindicações e, de modo geral, somente servem para enfeitar discursos e atos públicos de caráter eleitoral muito mal disfarçado.
Há, no entanto, detrás destas manobras eleitorais mais que pura demagogia. Na realidade, as reivindicações – que melhor faríamos em denominar depromessas eleitorais – servem, sobretudo, para ocultar uma grande operação de encobrimento e capitulação diante da ofensiva da direita contra as mulheres em escala nacional e mundial.
Nos referimos, naturalmente, à questão do direito de aborto.
As formulações dos diferentes partidos da esquerda sobre o 8 de março e a luta das mulheres passa por cima desta questão como se ela simplesmente não existisse.
Há mais de dois anos, a direita vem colocando contra a parede todo o movimento de mulheres com uma ofensiva sem precedentes: formação da frente parlamentar “em defesa da vida”, CPI do aborto, votação no STF sobre a questão das células-tronco, perseguição às clínicas de aborto, milhares de processos. Hoje tramitam no Congresso Nacional mais de uma dezena de projetos que representam um ataque em regra contra os direitos femininos.
Esta ofensiva legislativa e policial é acompanhada de uma enorme ofensiva ideológica.
Qualquer pessoa politicamente instruída pode ver claramente nestas manobras que a direita tem como alvo não apenas a questão específica do aborto, mas um ataque geral aos direitos democráticos das mulheres.
Também é visível para todos que esta ofensiva tem um caráter internacional.
Esta ofensiva contra as mulheres também não é um acontecimento isolado. Ela vem acompanhada de uma ofensiva reacionária em toda a linha, contra os sem-terra, em meio aos quais cresceu o número de assassinatos de lideranças camponesas, contra os direitos da juventude, dos negros, em torno dos quilombos e cotas, da juventude e, claro está, da classe operária que sequer tem o direito de fazer greve.
Já se pode sentir de Norte a Sul do Brasil aquele ambiente de colégio interno que sempre caracterizou o domínio da burguesia e das classes dominante brasileiras desde os tempos da Regência e dos inspetores de quarteirão. Censura, vigilância policial, ataques aos mais elementares direitos do cidadão, bem como uma ofensiva geral no terreno dos costumes, vem acompanhando esta ofensiva contra as mulheres.
Propor, nestas condições, a defesa da política do governo Lula como uma grande conquista, ou campanhas puramente fictícias pelo salário da mulher, é um exercício de puro distracionismo político.
Esta política – que caracteriza o conjunto da esquerda nacional – é uma profunda capitulação diante da política da direita e um abandono de qualquer luta por qualquer dos direitos das mulheres.
Nada disso é casual. Por meio da “democracia”, a esquerda, em sua quase totalidade, tornou-se um apêndice e um sustentáculo do regime político contra-revolucionário existente no país e no mundo dominado pelo imperialismo. Seus programas transformaram-se em instrumento de mera propaganda eleitoral no interior do regime político e em nada constituem uma ameaça a ele.
É isso o que explica, incidentalmente, que tenham sido dois parlamentares da esquerda, Luiz Bassuma, do PT, e Heloísa Helena, principal líder e porta-voz da Frente Esquerda Psol-PSTU-PCB, os principais expoentes da campanha repressiva e policial contra o direito de aborto, detrás dos quais se escondiam os homens da direita.
Agora, novamente, a esquerda começa a se alinhar, apesar de todo o jogo de cena, detrás da candidatura de Marina Silva, outra personalidade reacionária que se levanta contra os direitos democráticos da população explorada, em primeiro lugar as mulheres e os sem-terra. Heloísa Helena, que a esquerda afirmou peremptoriamente, que era a esperança “classista e socialista” do Brasil à sua direitista colega, demonstra acima de qualquer dúvida o seguidismo de todo este movimento, do qual Heloísa Helena é a principal, senão a única expressão com certo volume eleitoral, à candidatura de Marina Silva e à nova “alternativa” política da esquerda. Exceto se, o que está fora de cogitação, toda a Frente de Esquerda decidir romper com a vereadora de Maceió.
Tais motivos levam-nos a considerar que qualquer política que no 8 de março não coloque no primeiro plano a questão da defesa do direito democrático de aborto, deve ser repudiada como demagogia eleitoral, capitulação diante da direita e abandono de todas as reivindicações das mulheres.
Publicado em mulheres, rui costa pimenta - artigos
Plekhanov
Rui Costa Pimenta
O marxismo encontrou o seu maior e mais completo desenvolvimento como teoria revolucionária na Rússia, como expressão, ao mesmo tempo, do desenvolvimento da revolução proletária na Europa e da história revolucionária da própria Rússia.
Neste dia 30 de maio, estaremos relembrando um dos mais importantes teóricos marxistas russos no 90º aniversário da sua morte, George Plekhanov.
Plekhanov foi uma das maiores inteligências que o marxismo já teve. Militante revolucionário, profundo conhecedor da história revolucionária da Rússia e homem de extraordinária cultura.
Foi profundo conhecedor do marxismo, o que lhe possibilitou ser, além das teses originais que concebeu baseadas na teoria dos seus mestres Marx e Engels, um dos maiores divulgadores desta teoria em todos os tempos. Foi, nesse sentido, professor de gigantes do marxismo como Lênin e Trótski sobre os quais exerceu enorme influência teórica.
Lênin o considerava o marxista vivo que melhor compreendia as questões da filosofia em geral e da filosofia marxista. Foi o mais importante teórico da literatura e das artes que o marxismo já teve, influenciando as concepções artísticas de Lênin e Trótski e, de certa forma, toda a cultura revolucionária russa de forma decisiva.
A obra de Plekhanov, neste terreno, pela sua profundidade e seriedade se coloca muito acima do idealismo pseudo marxista que veio a ser conhecido como crítica da literatura em tempos posteriores.
Plekhanov foi discípulo de Marx e, inclusive em um sentido literal e pessoal, do grande Frederico Engels a quem chamava “meu mestre”.
Mais, foi também o maior herdeiro de toda a espantosa tradição revolucionária russa que vai dos decembristas de 1825 até Chernichevski. Este último, particularmente, grande homem e grande teórico, seguidor de Hegel, deu uma inestimável contribuição para o estabelecimento do marxismo revolucionário caracteristicamente russo.
Após a revolução russa de 1917, traficantes intelectuais que buscavam no marxismo material para o seu comércio teórico burguês utilizaram-se da evolução oportunista de Plekhanov em seus últimos anos para denegri-lo, coisa que os verdadeiros revolucionários russos, os bolcheviques, nunca o fizeram, apesar de terem sido eles que combateram as suas teorias.
Trótski, em um escrito dos anos 30, diz claramente que o Plekhanov oportunista é uma excrescência e que o verdadeiro Plekhanov é o revolucionário: “este é o nosso”, integrando-o claramente na herança teórica da classe operária na IV Internacional como um dos seus grandes defensores de todos os tempos.
O ataque contra Plekhanov, que vem das hostes pequeno-burguesas idealistas que querem cobrir seus farrapos teóricos com o manto enobrecedor do marxismo é, na realidade, um ataque contra a revolução proletária e uma tentativa de domesticar o marxismo à religiões intelectuais pequeno-burguesas.
Publicado em marxismo, rui costa pimenta - artigos





