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EGITO: TRÊS ANOS DE REVOLUÇÃO

Qual é a importância da avaliação da revolução que derrubou a ditadura de Hosni Mubarak, do governo Morsi e do golpe militar?
Nos últimos dias, completaram-se três anos da revolução no Egito. A avaliação desse processo é muito importante para a política mundial e nacional. O ponto de partida é o problema do golpe militar que foi apoiado com entusiasmo pela esquerda pequeno-burguesa como significando o aprofundamento da revolução egípcia. A derrubada do governo Morsi teria sido, supostamente, um fato muito positivo.A mobilização das massas populares que derrubou a ditadura Mubarak não conseguiu desmantelar os fundamentos do regime. Havia uma situação revolucionária em desenvolvimento. Perante o tamanho da crise, a burguesia tentou dar uma saída chamando a eleições, criando uma democracia de fachada. As eleições foram ganhas pelo principal partido oposicionista. A Irmandade Muçulmana tentou estabilizar o regime implantando um governo nacionalista moderado.

A direita percebendo a fragilidade do governo, tentou desestabiliza-lo, com a campanha de denúncia do autoritarismo contra as massas, da crise etc, explorando todas as fragilidades da oposição burguesa nacionalista. O movimento de massas aconteceu sob a condução política da direita e do imperialismo. Os setores que a apoiavam partiam da ilusão de que o fato das massas estarem contra o governo era sempre um avanço revolucionário independentemente da direção política, sem considerar o sentido, os objetivo e as forças em luta. É a transcrição da ideia da democracia para as mobilizações populares como meio de controle da situação política.

Do Diário Causa Operária Online número 3715, de 2 de fevereiro de 2014

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Paraguai: o que mostraram as eleições?

Nas recentes eleições gerais do Paraguai, o conservador Partido Colorado, pilar da sanguinária ditadura encabeçada por Alfredo Stroessner (1954-1989), foi o grande vencedor. Trás haver obtido 45,8% dos votos válidos (abstencionismo: 31,4%), o novo presidente do País será Horacio Cartes, um milionário sobre quem pesam acusações de contrabando, lavagem de dinheiro e ligações com o narcotráfico.

Efraín Alegre, do Partido Liberal e ex-ministro de Obras Públicas e Comunicações no governo de Fernando Lugo, obteve 36,94% dos votos.

O candidato do ex presidente Fernando Lugo, Anibal Carrillo, obteve 3,32% e o outro candidato esquerdista, Mario Ferreiro, de Avanza País, obteve 5,88% dos votos.

O Partido Colorado obteve 19 senadores, de um total de 45 vagas, 47 deputados de um total de 80, e a governatura de 15 departamentos de no total de 17, inclusive o Central, onde fica Assunção, a capital do País.

Lugo, tirado do poder em junho do ano passado, por meio de um golpe de estado branco, quando foi destituído pelo Congresso, se limitou a declarar: “tentamos obter o triunfo, mas não foi possível. O povo paraguaio se pronunciou e nós respeitamos”.

Qual é o significado da vitória do Partido Colorado?

O triunfo da direita recalcitrante paraguaia aconteceu sob forte pressão do imperialismo e burguesia pró-imperialista. Da mesma maneira que aconteceu nas eleições no México no ano passado, o imperialismo impôs um candidato “reciclado” (sem um passado político de primeira linha), sob forte pressão e enormes esquemas de fraudes com compras de votos que superaram os tradicionais níveis de corrupção, levando, além da suspensão de um senador, a denúncias na própria imprensa burguesa.

As eleições se enquadram na nova política do imperialismo norte-americano para a América Latina que tem como objetivo aumentar o saque das riquezas devido à necessidade de repassar para a região parte da crise, por causa da derrotas que tem sofrido nas demais regiões do planeta, e à queda acentuada dos lucros dos monopólios a partir do ano passado, perante o fracasso dos “pacotes de estímulo”, ou seja os trilhões repassados para os monopólios, que não conseguiram promover qualquer crescimento.

Numa primeira fase, o imperialismo está tentando impor governos de centro direita, como aconteceu na Colômbia, no Chile, no México e, agora, no Paraguai. O problema é que esses governos estão entrando em crise muito rapidamente devido ao aumento do descontentamento e dos protestos das massas. Por esse motivo, esses governos devem ser considerados como uma etapa intermediária que continuarão enfrentando enormes dificuldades para aplicar a política imperialista. A tendência da direita pró-imperialista é usa-los como trampolim para progredir para uma saída de força aberta, para governos ditatoriais a la Pinochet. O aumento dos ataques contra as massas passam pelas tentativas de desestabilização e derrubada dos governos nacionalistas para, a partir daí, destruir os organizações da massas trabalhadoras em grande escala.

O Paraguai voltará ao Mercosur e aos demais organismos de onde tinha sido excluído após o golpe contra Lugo, como a Unasur. O governo brasileiro colocou como condição a aprovação formal pelo senado paraguaio do ingresso da Venezuela ao Mercosur. Isto, assim como vários outros fatos, mostra claramente a aliança concreta que existe entre o nacionalismo brasileiro e o chavismo.

 No que o imperialismo está de olho no Paraguai?

Os interesses dos monopólios no Paraguai são diversos devido, principalmente, à fartura de isenções, facilidades de todos os tipos e ao tradicional entreguismo das elites locais. O aquífero Guaraní representa as maiores reservas de água doce do mundo. As recentes descobertas, na região fronteiriça com a Bolívia, expuseram enormes reservas de minério de ferro, ouro, cobre e titânio. No Chaco, há importantes reservas de petróleo de tipo leve que incialmente permitiriam produzir 150 mil barris diários. A maior reserva de gás das Américas está localizada na região conhecida como “La Vertiente”, em Tarija, Bolívia, que, está conectada, à reserva de petróleo e gás “Independência 1”, a 100 quilômetros de Gabino Mendoza, no Paraguai.

A multinacional anglo-britânica Rio Tinto tem um projeto, avaliado em US$ 4 bilhões, para produzir alumínio. Devido à alta demanda energética requer um forte controle das duas grandes centrais hidrelétricas e, obviamente, a estabilidade social e política no País, cuja economia, no ano passado, sofreu contração de -1,5%.

Para manter e ampliar a produção de soja transgênica, que hoje ocupa grande parte do território, e as vendas de agrotóxicos, a Monsanto precisa conter os camponeses pobres e sem terra, e, por esse motivo, foi um dos principais protagonistas do golpe contra o presidente Lugo.

A base militar do exército norte-americano no Chaco serve como ponta de lança, para facilitar intervenções rápidas nos países do Cone Sul e no Brasil, e faz parte da estratégia para o controle militar do Continente junto com as demais bases existentes na Colômbia, Argentina (Chaco) e Chile, e a recentemente reativada IV Frota.

Publicado no Causa Operária Online número 3432, de quinta-feira, 25 de abril de 2013

Atentados de Boston. Quem são os terroristas? Quem está por trás?

 

Na segunda-feira, 15 de abril, durante a tradicional Maratona de Boston, a detonação de duas bombas deixou como saldo três pessoas mortas e 160 feridas.

Como suspeitos foram apontados dois rapazes de origem tchetcheno que moravam no país desde a infância. O principal suspeito, o irmão mais velho, de 26 anos, foi assassinado pelo FBI porque supostamente teria resistido à prisão. O segundo, de 19 anos, está preso. Segundo declarações da mãe deles declarou, o rapaz mais velho estava sendo monitorado pelo FBI havia cinco anos.

A cidade de Boston foi imediatamente militarizada. A campanha da imprensa burguesa foi gigantesca e agressiva, mostrando, de maneira mórbida, pedaços de corpos espalhados pelo chão. Os canais de TV ficaram vários dias praticamente só falando no sucedido. Na mesma semana, uma planta industrial de fertilizantes em Texas tinha explodido, devido à falta de investimentos adequados, provocando a morte de 15 pessoas, 60 desaparecidos e quase 200 feridos. Um atentado na capital do Iraque, Bagdá, deixou um saldo de quase 60 mortos. A imprensa burguesa quase não falou nada.

 

Quem está por trás do atentado?

 

Um estudo do qual participou a Universidade de Berkeley, Califórnia, concluiu que de 158 tentativas de atentados terroristas que aconteceram nos EUA desde o 11.9.2001, pelo menos em 49 deles houve a participação de agentes infiltrados do FBI.

Desta vez, o ataque foi tão escancarado que até alguns órgãos da imprensa imperialista chegaram a questiona-lo. O Yahoo News publicou uma matéria intitulada “Quem está por trás das bombas da Maratona de Boston?”, onde colocou quatro hipóteses, das quais uma delas era o próprio governo; foi algo sem precedentes na ultra-controlada imprensa imperialista norte-americana.

Um conhecido jornalista (do site especializado Infowars) questionou o governador do estado de Massachusett, Deval Patrick, sobre se o atentado poderia ter sido provocado pelo próprio governo com o objetivo de atacar as liberdades civis. Até o jornal neo-conservador Atlantic Monthly, ligado a figurões da direita como Jeffrey Goldberg e Christopher Hitchens, publicou uma matéria intitulada “O que é um ataque ‘falso positivo’ e o que Boston tem a ver com isso?”, chegando inclusive a reconhecer a existência de precedentes em relação ao envolvimento do FBI.

A suposta luta contra “terrorismo” é usada como a bandeira para permitir todo tipo de abusos contra as massas. A imprensa burguesa usa a propaganda para forçar as pessoas a acreditarem que o terrorismo é a questão mais importante do país, sob a mensagem de que “os terroristas odeiam você e a sua liberdade”. Enquanto isso, a ultradireita do Tea Party já tem falado que, como complemento à Lei Patriótica de 2001, devem ser permitidos as revistas corporais integrais a qualquer momento, mecanismos que facilitem aumentar o número de policiais nas ruas, o aumento das tropas nas ruas, a implementação do TSA (segurança que hoje funciona nos aeroportos) nos shopping centers. Essas medidas se somam à renovação da lei FISA (Foreign Intelligence and Surveillance Amendments Act) no final do ano passado, que permite espionar os cidadãos sem ordem judicial e que agora também autorizou a fazê-lo, legalmente, com qualquer cidadão no mundo. Todo aquele que se opor aos trilionários repasses de recursos públicos aos especuladores financeiros pode ser considerado um terrorista.

Os serviços de espionagem das principais potências estão por trás da maioria dos ataques terroristas, pelo menos nos países imperialistas. O atentado de Boston foi um ato de desespero promovido pela direita que mostra que conforme o imperialismo vá apodrecendo torna-se uma espécie de leão ferido, capaz de qualquer barbárie. O atentado representa, portanto, mais um sinal evidente do aprofundamento da crise capitalista.

Publicada no Causa Operaria Online número 3431, de 24 de abril de 2013

Venezuela: Chamar o povo para esmagar a direita golpista nas ruas

Bandos fascistas de Capriles assassinaram quatro partidários do chavismo e incendiaram sedes do PSUV e outros locais após derrota nas eleições presidenciais

Sedes do PSUV, o partido chavista na Venezuela, nas estados de Anzoategui e Tachira, foram incendiadas por bandos organizados por Capriles nesta segunda-feira. Os locais foram atacados e começaram a queimar quando ainda havia pessoas dentro.

O recém-eleito Nicolás Maduro acusou Capriles de ser o responsável por criar uma atmosfera de violência para desestabilizar o país.

Pelo menos sete pessoas morreram e 61 ficaram feridas, segundo a rede Telesur.

Maduro foi informado a respeito dos ataques durante uma conferência de imprensa internacional, no palácio presidencial de Miraflores, na noite desta segunda-feira (16). Diante disso, declarou: “É esta a Venezuela que vocês querem? Esta é a Venezuela que vocês estão promovendo, candidato derrotado? Você é responsável por esse incêndio criminoso. Eu o responsabilizo porque você levou a violência para as ruas, você é o responsável. Eu o considero responsável por quaisquer feridos e mortos diante de todo o país.

“Chega desses abusos, que mostram o que mundo sabe que tipo de ala direita temos aqui na Venezuela: uma ala direita que é capaz de qualquer coisa. Eles ficam ofendidos quando dizemos que eles se parecem com a ala direita dos anos 1930 na Alemanha, uma direita intolerante, que nunca refreou sua intolerância e arrogância, sem exageros”.

Há uma ameaça concreta de golpe de Estado. Os atentados contra as sedes do PSUV marcam a guinada da direita, que decidiu atuar por fora dos mecanismos parlamentares de controle do Estado.

Apesar da retórica contra a direita, até agora Maduro e o PSUV não reagiram ao ataque. A reação típica dos governos nacionalistas e de frente popular é capitular diante da ofensiva golpista.

A direita venezuelana decidiu que vai ganhar as eleições “nas ruas”, no “tapetão”. Esse é o significado dos ataques desta segunda-feira.

É preciso combater a extrema-direita fascista nas ruas, não com discursos, mas com a mobilização das massas trabalhadoras e populares.

Eleições na Venezuela: por um partido dos trabalhadores

Por que os revolucionários devem votar nulo? Por que a candidatura Lula em 1989 era diferente da candidatura chavista? Qual é a tática de um partido marxista nas eleições? Qual é o significado do voto nulo da esquerda pequeno-burguesa e da falência da frente de esquerda?

A única garantia da luta do proletariado avançar é a sua organização independente de todos os setores da burguesia. Devido à inexistência de um candidato operário, os revolucionários proletários devem chamar a votar nulo.

Apesar de Nicolás Maduro ter origem no movimento sindical, e de ter sido um integrante da burocracia, ele não é um candidato operário, que representa a luta operária, mas um candidato de um partido abertamente burguês, o PSUV (Partido Socialista Unificado da Venezuela).

A chave da questão é entender que partido estamos enfrentando. Chamar ao voto no PSUV gera enorme confusão, apesar do apoio da população ao chavismo ser massivo. Está colocado o problema da contraposição entre a independência de classe e o apoio condicional e crítico a determinadas reformas chavistas. Entre uma e outras, não pode haver dúvida da importância essencial da primeira que não pode ser sacrificada às segundas.

Votar nas eleições burguesas não é uma verdadeira luta para o proletariado, mas apenas uma plataforma de propaganda. O golpe que a direita pró-imperialista e o imperialismo estão tentando viabilizar não será contido votando em Maduro, mas pela reação popular.

A luta central é contra a direita que aposta no fracasso do chavismo para retomar o poder, com consequências nefastas para os trabalhadores. Ela está indo às eleições com esse objetivo, pois sabe que não poderá vencer. É preciso derrotá-la, mas sem sacrificar a independência  da classe operária diante do chavismo, que corresponde a uma outra classes social, a burguesia nacional.

chavismo se mostrou uma força política muito instável. O golpe em 2003 somente foi derrotado devido à ação espontânea das massas, o que revela a própria dinâmica da situação. O chavismo, como uma típica força nacionalista burguesa de esquerda, procura bloquear essa luta espontânea, impede a organização independente, o armamento da população e luta contra o imperialismo de uma maneira muito limitada. Por isso, apoiar o chavismo em bloco, como o fez o PSOL por exemplo, bloqueia a luta das massas e a reação contra a direita golpista, e deixa o proletariado a reboque da burguesia nacional.

Para derrotar a direita é preciso o partido operário, ou seja, é preciso desenvolver integralmente a força revolucionária da classe operária, sua organização, seu programa socialista. Infelizmente, não há um candidato que represente os interesses do proletariado e portanto não há em quem votar. A situação será resolvida na luta.

 

Por que a candidatura Lula em 1989 era diferente da candidatura chavista?

 

Uma pergunta que surge é em que sentido a candidatura de Lula em 1989, na qual o PCO chamou a votar, era diferente da candidatura chavista? Lula era um candidato operário, surgido das lutas dos metalúrgicos do ABC e, nesse sentido, fazia a luta pela formação de um partido independente avançar. O movimento do Chávez não é o PT de 1989.

A campanha de 1989 de Lula, foi uma campanha proletária e da pequeno-burguesia de esquerda. Lula teve uma votação enorme em todas as fábricas. Os trabalhadores que levavam adiante uma luta sindical e política contra a burguesia tomaram a candidatura Lula como um instrumento da sua luta, embora o fosse apenas de maneira muito limitada e parcial.

Hugo Chávez foi um candidato nacionalista burguês, de extração militar, profundamente ligado ao estado burguês. Nicolás Maduro, apesar da extração operária, é um representante do chavismo, um movimento nacionalista burguês que não tem na base os sindicatos ou as lutas operárias independentes, mas o movimento nacionalista surgido do exército. Uma avaliação parecida também se aplicaria para os Kirchner, Rafael Correa, Humala, Mujica, Bachelet, Ortega e os demais governos nacionalistas burgueses latino-americanos.

A esquerda pequeno-burguesa não consegue entender nada disso devido às restrições de classe, à impossibilidade de realizar uma análise sob o ponto de vista do proletariado. O critério pequeno-burguês é ideológico e moral, não de classe. Para a esquerda pequeno-burguesa a tarefa não é fazer avançar a independência de classe de uma maneira prática, mas a preservação de uma suposta pureza ideológica em abstrata, uma política passiva e sectária.els,w

 

Qual é a tática de um partido marxista nas eleições?

 

A tática de um partido marxista nas eleições deve seguir o mesmo princípio da luta geral, ou seja, a luta pelo desenvolvimento da consciência de classe e, portanto, de uma organização política de classe, a forma prática da consciência de classe. As eleições não passam de uma questão secundária da luta da classe operária, uma vez que o capitalismo não pode ser eliminado em forma parlamentar e eleitoral e a época das reformas parlamentares ficou há muito no passado. Tratam-se apenas de uma tribuna de propaganda pelo programa revolucionário. Deveria ser sacrificada a independência de classe por uma tribuna de propaganda? Se tivermos força suficiente para eleger um deputado, o próprio processo da eleição já seria uma tribuna importante.

A preocupação fundamental dos revolucionários deve ser a separação da classe operária da burguesia, a delimitação permanente, achar e aplicar a política que permita avançar em direção à independência da classe operária e à revolução. É necessário mostrar os interesses diferentes, a necessidade dela ser uma classe independente. Por esse motivo, nunca devemos chamar a votar em candidatos de partidos burgueses ou em candidatos pequeno-burgueses e burgueses de esquerda, mesmo que se apresentem sob o rótulo de “socialistas.

Sobre a questão nacional e a luta democrática há duas” soluções, a da burguesia e a operária. Há políticos que estão vinculados à luta operaria, apesar da política burguesa. Os únicos candidatos do nacionalismo burguês latino-americano em quem os revolucionários operários poderiam chamar a votar, em geral, são Lula e Evo Morales, pois ambos têm raízes vinculadas às lutas operárias e camponesas. Mesmo assim trata-se de uma questão meramente tática que deve ser analisada, caso a caso, no sentido da evolução da luta revolucionária pela independência da classe operária.

 

Sobre o voto nulo da esquerda pequeno-burguesa

 

O ponto de partida da política da esquerda burguesa e pequeno-burguesa é uma enorme confusão sobre o entendimento do imperialismo e do nacionalismo.

A própria existência do imperialismo e dos países atrasados implica na existência de duas alas da burguesia, a imperialista e a burguesia nacional. A existência das contradições entre ambos setores é provocado por fatores objetivos, materiais. O aprofundamento da crise capitalista leva ao acirramento dessas contradições.

O foco da política do imperialismo é tentar viabilizar golpes de estado na América Latina com o objetivo de repassar parte das perdas que decorreram como resultado das derrotas nas outras regiões do planeta, principalmente no Oriente Médio. Por isso, o eixo deve ser atacar à direita, ou seja, o imperialismo. Os ataques ao chavismo devem ser feitos sobre esse prisma, denunciando a sua capitulação diante do imperialismo e a incapacidade de avançar nas reformas devido ao medo, intrínseco do imperioalismo e da organização independente das massas.

Quando a LIT e o PSTU se posicionam pelo voto nulo (http://www.litci.org/artigos/55-venezuela/3776-en-las-elecciones-del-14-de-abril-los-trabajadores-no-tenemos-una-alternativa-independiente), o fazem, basicamente, reproduzindo as críticas da direita imperialista ao chavismo, apesar de reconhecerem que os responsáveis pelos problemas são os patrões, ou seja, os apoiadores de Capriles. Na matéria, os ataques contra a direita aparecem como secundários, e, provavelmente, foram incluídos, somente para constar, devido à pressão que as massas nas ruas têm exercido e apesar do aumento da polarização da luta entre a esquerda e a direita.

De concreto, as políticas colocadas por esse documento são abstrações sem conteúdo real ou mesmo capitatuladoras, sem falar nada sobre a necessidade da organização independente e pela base dos trabalhadores – típico do morenismo.

O discurso de que Chavez não é socialista e por isso deve ser atacado é simplesmente ridículo. Ochavismo não passa de nacionalismo burguês e sob esse ponto de partida deve ser estruturada a política proletária.

Falar que o frango na Venezuela está caro como motivo para combater Chavez, por exemplo, é constatar uma realidade, mas não convence as massas deslindar-se do chavismo. E mesmo se o fizerem, qual seria a alternativa? Capriles? Trata-se de demagogia eleitoral rasteira, típica de quem não tem participação no movimento político real, no movimento sindical ou social, e fica no vale tudo dos discursos demagógicos.

Criticar o chavismo pelo desabastecimento, como o PSTU, entre outros, o faz, também implica em fazer o jogo da direita. Quem provoca o desabastecimento são os capitalistas, como o próprio documento referido o reconhece. Por que, atacar o governo de Maduro diretamente por isso? O correto seria criticar a falta de ação do governo chavista contra a burguesia (intervenção nas empresas, controle operário). Os culpados são os capitalistas, portanto, ao governo, que goza da confiança da enorme maioria da população, lhe deve ser exigido que intervenha essas empresas, que as estatize. E se não o fizer, deve ser denunciado por isso, por capitular, mas em nenhum momento coloca-lo como o principal culpado.

A desvalorização da moeda foi uma medida monetária defensiva perante a queda do faturamento da PDVSA, que está na base do colchão social de controle das massas. A mesma medida seria tomada pela direita e ainda entregaria a PDVSA para o imperialismo, o que lhe obrigaria a acabar com os programas sociais e a impor um regime a la Pinochet para conter as massas. Isso deve ser deixado muito claro, do que esse documento passa muito longe.

A política de atacar o chavismo em bloco e a de colocar no mesmo nível a burguesia nacionalista e a direita pró-imperialista são profundamente erradas devido a que, além de igualar as duas alas da burguesia, confundem a estratégia (entendimento do caráter burguês do nacionalismo) com a tática, isto é, a política que permitiria ganhar as massas que formam a base social do chavismo.

Os revolucionários proletários não deveriam atacar o chavismo em bloco, mas nos aspectos práticos. Por exemplo, nós concordamos com a defesa do petróleo, dos programas sociais e a crítica contra a direita liderada por Capriles mesmo com todas as deficiências e limitações enormes que apresenta. Mas, ao mesmo tempo, nós sabemos que o chavismo, como típico nacionalismo burguês, é incapaz de levar a luta até o fim; isso somente poderá ser feito pela classe operária por meio de um partido operário.

 

A falência da frente de esquerda

 

O ponto de partida da política revolucionária proletária é lutar pela organização do partido revolucionário de massas do proletariado e não votar em quem tiver o discurso mais bonito. O problema colocado é como ter acesso à classe operária, que na Venezuela é chavista, na Argentina peronista e no Brasil petista. A nossa política deve estar orientada para o movimento operário e não para organizações centristas ditas trotskistas.

A política da frente de esquerda busca aglutinar grupos centristas com o objetivo básico de eleger um deputado, o que implica na necessidade prática de capitular diante da burguesia em vários aspectos, normalmente rebaixando o programa para se mostrar palatável perante a imprensa burguesa ou para adequar-se de grupos oportunista, como os influenciados pelo morenismo. Colocar a luta da classe operária nas mãos da esquerda centrista da Venezuela, que no fundo é chavista, é repetir uma política fracassada.

O candidato “natural” da esquerda pequeno-burguesa e dita trotskista, Orlando Chirino, desistiu de participar como candidato independente, e a deixou órfã. Todos esses grupos se acovardaram perante as gigantescas mobilizações das massas, das quais não tiraram conclusões políticas.

Chirino é um chavista de carteirinha. Ele é um antigo burocrata chavista desde a fundação da CNT (Central Nacional dos Trabalhadores) pelos chavistas em 2003, após o lockout patronal e a tentativa de golpe de estado da direita, com o objetivo de disputar o controle da organização dos sindicatos à ultrapelega CTV (Central do Trabalhadores de Venezuela). Chirino foi empossado como funcionário da PDVSA em 2003 por meio da indicação do presidente da SINU-TRAPETROL, um dos dirigentes sindicais que fora empossado na nova diretoria da PDVSA por meio de um decreto presidencial. Em 2007, Chirino foi demitido por não concordar em integrar-se formalmente ao novo PSUV (Partido Socialista Unificado da Venezuela) e por não ter defendido o voto no “SIM” no referendo que foi derrotado em 2007.

Chirino passou a fazer parte do PPT de Henri Falcón, uma ruptura com Hugo Chávez pela direita que em 2010 acabou se aproximando da MUD de Capriles. Chirino se distanciou de Falcón e fundou o PSL (Partido Socialista e Liberdade), ligado à autodenominada internacional trotskista UIT-QI, que no Brasil é representada pela CST, do deputado do PSOL Babá, e na Argentina pela Esquerda Socialista que faz parte da Frente de Esquerda liderada pelo PO (Partido Obrero), grupos incuravelmente centristas pequeno-burgueses e frentepopulistas. Nas eleições presidenciais de outubro do ano passado, a frente liderada por Chirino obteve apenas 4.000 votos.

Agora, Chirino, para desilusão da esquerda pequeno-burguesa, não quis sair como candidato independente e passou a apoiar a Maduro, o que aliás não é uma ação muito heroica num momento de ascenso do apoio popular; muito mais heroico teria sido haver apoiado Hugo Chávez em 2007 com a direita e o imperialismo promovendo uma enorme campanha contrária. Chirino é chavista e o momento de apoiar Maduro é justamente agora, no sentido mais oportunista da política, considerando a obtenção de ganhos, pois é agora que o chavismo está em ascenso. Da mesma forma, Chirino rompeu com o chavismo quando a pressão da direita e do imperialismo estava em ascenso. Não é uma orientação política, mas um líder e um partido que flutuam ao sabor das ondas.

A medida em que a situação evolui, certas políticas, como a própria frente de esquerda, vão ficando mais claras, mostrando que não contribuem para a construção do partido revolucionário do proletariado. Formar um bloco de esquerda em torno de Chirino é oportunismo puro e o fato dele não ter aceitado sair candidato, não é nada surpreendente e comprova esta tese. Chirino é, na realidade, a Heloísa Helena venezuelana. A frente de esquerda venezuelana é chavista e, por esse motivo, em nada contribui para a luta do proletariado. A luta deve ser por um partido operário que tenha um candidato vinculado à luta operária e sua lutas independentes.

 

O programa revolucionário para a Venezuela

 

O programa concreto para a Venezuela, assim como para a América Latina, deveria justamente propor a construção do partido revolucionário do proletariado ao invés de ficar criticando o chavismo a esmo. É preciso entender que os trabalhadores apoiam o chavismo porque ele atende parte das reivindicações, enquanto a esquerda no melhor dos casos faz um discurso bonito.

O ideal seria lançar um candidato proletário próprio, levando em conta que as eleições burguesas, sob o ponto de vista marxista, não passam de uma tribuna propagandística. É neste sentido que os revolucionários deveriam ter trabalhado para estas eleições ou em vista ao futuro, independentemente de ter poucos votos.

Encarando o processo eleitoral como uma tribuna, é preciso focar-se na divulgação do programa revolucionário ao invés de “eleger um deputado de esquerda” como propõe, por exemplo, a Frente de Esquerda argentina, ou o PSOL e o PSTU no Brasil.

A política da frente de esquerda é uma política centrista, oportunista e focada em questões eleitorais que visa mostrar um tamanho desses grupos numericamente maior. Não tem nada a ver com a política de frente única operária e anti-imperialista da III e da IV Internacional, nem com a experiência revolucionária prática posterior, por exemplo, a da revolução boliviana.

O fato de obtermos poucos votos nem sequer deveria nos impressionar. Conforme formos aparecendo perante a população, principalmente através de uma correta orientação para as suas lutas econômicas e políticas, uma vez que elaborarmos a política correta, poderemos ir aparecendo como uma alternativa conforme a própria situação objetiva for evoluindo e até termos mais votos no futuro. Em momento de refluxo para os revolucionários é sempre preciso participar dos processos eleitorais, mas levantando a bandeira da política revolucionária, nunca priorizando a eleição de um deputado. Somente se justifica não participar do processo eleitoral quando ele contrariar, servir como obstáculo a outro movimento que estiver se desenvolvendo em outro sentido. Neste sentido, chama a atenção que a enorme maioria dos grupos da esquerda dita trotskista, apesar de serem super eleitoralistas não lançam, ou pelo menos tentam lançar, candidatos independentes, que divulguem o próprio programa, em quase lugar nenhum.

Publicado no Causa Operária Online número 3118, de 11 de abril de 2011

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