Arquivo do autor:Henrique Áreas de Araujo

Manipulação: o jogo sujo contra Sanders

Imprensa capitalista vende a história de que Sanders seria impopular entre negros e latinos, e que esses tenderiam a votar em Hillary Clinton

As eleições presidenciais norte-americanas do ano que vem já começaram. Em um sistema montado para que apenas os dois maiores partidos tenham chances reais de eleger um presidente, as eleições primárias, que começaram semana passada, decidem quem serão os candidatos deses dois partidos à presidência. Além do sistema bipartidário, que já é um mecanismo de controle das eleições, as próprias eleições primárias são um esquema cheio de mecanismos adicionais para controlar a votação.

Essa semana, graças aos “superdelegados”, Hillary Clinton conseguiu o mesmo número de delegados que Bernie Sanders em Nova Hampshire, depois de perder na votação de muito longe (60% a 38%). Um fato que ilustra de forma contundente como o aparato do partido está contra a candidatura de Sanders e a favor de Hillary, que é apoiada também pelo mercado financeiro, por Wall Street.

No entanto, diante da crise social e política nos EUA, há uma crise também dentro dos partidos. Apesar de todos os mecanismos de contenção, Bernie Sanders conseguiu romper o cerco e entrar na disputa com chances de vencer as eleições primárias e impor sua candidatura, propondo salário mínimo, sistema público de saúde, educação superior gratuita etc.

Para tentar evitar uma candidatura de Sanders, o aparato democrata tem promovido uma campanha suja contra o pré-candidato. Para minimizar sua vitória em Nova Hampshire, estão dizendo que Sanders está tendo votações boas em estados com poucos negros e latinos. Assim dão a entender que sua candidatura continuaria sendo “inviável”, e que a candidata das minorias norte-americanas seria Hillary Clinton. Mais uma tentativa de controlar os votos evitando um debate político, jogando negros e latinos contra Sanders em benefício de Hillary.

A intriga também é uma falsificação da história, tudo que os Clinton ofereceram aos negros e latinos foi demagogia, enquanto deslocavam todo o partido à direita depois do governo Reagan, como aconteceu com o Partido Trabalhista britânico depois do governo Thatcher. Na época, em 1988, Sanders apoiou Jesse Jackson, um pré-candidato negro, para concorrer às eleições presidenciais pelo partido.

Primeiro Sanders não tinha nenhuma chance. Agora não poderia vencer porque não teria votos de eleitores que não sejam brancos. São tentativas seguidas de fraudar por dentro das regras a vontade dos eleitores. Regras que já são pensadas para manipular os eleitores mas que podem ser insuficientes dessa vez.

Varoufakis lança mais um partido pequeno burguês, dessa vez europeu

Depois de capitular com o “Psol grego”, o ex-ministro das Finanças fundou um partido pan-europeu essa semana em Berlim, o DiEM 25

Yanis Varoufakis

Durante 2015, o governo do Syriza, na Grécia, liderado pelo primeiro-ministro Alexis Tsipras, foi eleito duas vezes, venceu um referendo popular e capitulou nas negociações da dívida com os credores da União Europeia (UE) e o FMI. Em janeiro, o partido foi eleito com a promessa de acabar com as políticas de austeridade impostas pela UE. Depois de meses de negociações, o Syriza cedeu em tudo à burocracia europeia controlada pelos interesses da Alemanha e aceitou aplicar praticamente todo o programa neoliberal da Europa para a Grécia, depois de chamar um referendo em que a população rejeitou, mais uma vez, esse programa. Um programa que está destruindo o País há mais de cinco anos.

O ministro das Finanças durante aquele primeiro governo era Yanis Varoufakis, professor de economia especializado em teoria dos jogos com diversos livros acadêmicos publicados. Da academia para o governo, Varoufakis participou da capitulação de um partido pequeno burguês no poder. Consumada a derrota nas “negociações” com a UE, Tsipras chamou novas eleições, em que se candidatou para se tornar o primeiro-ministro novamente, dessa vez para aplicar o pacote de ajustes da UE. Varoufakis já tinha saído do governo semanas antes de novas eleições serem chamadas.

Agora o ex-ministro grego lança novamente um partido pequeno burguês como o Syriza, mas em todo o continente. O DiEM 25, fundado nesta terça-feira, 9 de fevereiro, em Berlim, propõe uma nova constituição para todo o continente. Segundo Varoufakis, não há mais democracia na Europa, com os governos sendo esmagados pela burocracia da UE.

De fato a burocracia europeia esmaga os governos dos países mais fracos dentro do bloco. O Syriza, no entanto, prometia encerrar as políticas de austeridade em uma negociação com a UE, alimentando uma ilusão. O partido é uma espécie de Psol grego, um partido esquerdista pequeno burguês e sem programa. Sem disposição para romper com a UE, o primeiro e breve governo de Tsipras foi para uma negociação perdida.

Diante da experiência desse fracasso, Varoufakis continua alimentando essa mesma ilusão na democracia burguesa. No lançamento do DiEM 25 Varoufakis afirmou que o “modelo dos partidos que prometem e não cumprem” teria sido “superado”. E propõe seu novo movimento para “lançar as ideias sobre as alternativas que temos para superar o modelo neoliberal”. Um programa ainda mais vago do que o do Syriza.

Trump: o perigo de fora do “establishment”

Candidato avulso lidera as pesquisas eleitorais e expressa crise do Partido Republicano e do sistema político norte-americano

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Nesta terça-feira, 9 de fevereiro, Donald Trump, pré-candidato à presidência pelo Partido Republicano, venceu a segunda etapa das eleições primárias. Depois de ficar em segundo lugar no estado de Iowa na semana passada, Trump confirmou seu favoritismo nas pesquisas em Nova Hampshire. Com 35% dos votos, Trump ficou muito à frente do segundo colocado no estado, John Kasich, governador de Ohio, que ficou com 16%.

Na semana passada, Trump acusou Ted Cruz, candidato do Tea Party para concorrer à presidência pelos republicanos, de ter fraudado a votação no Iowa. Trump, um bilionário do ramo imobiliário e celebridade televisiva, é um candidato avulso, que tem aparecido nas pesquisas eleitorais como o republicano com mais chances de vencer as primárias e ser candidato à presidência. Em Iowa, terminou em segundo lugar, surpreendido pela votação de Cruz. Seu favoritismo, dessa confirmado com ampla vantagem em Nova Hampshire, expressa uma crise no Partido Republicano, parte de uma crise do sistema político norte-americano em geral.

Enquanto Trump lidera as pesquisas rumo à candidatura pelos republicanos à presidência, o candidato de Wall Street, Jeb Bush, governador da Florida, ficou com apenas 11% dos votos em Nova Hampshire, terminando em 4º lugar entre os pré-candidatos de seu partido. Na votação anterior, em Iowa, Jeb Bush ficou em sexto, com apenas 3% dos votos. Bush é de muito longe o candidato republicano com a campanha mais cara. Assim como Hillary Clinton do lado democrata, o irmão do ex-presidente George W. Bush é o candidato do mercado financeiro.

Desde o momento em que Trump começou a liderar as pesquisas a imprensa capitalista norte-americana tratou de fazer uma forte campanha contra o candidato. Mesmo a Fox News, canal de televisão que representa a extrema-direita, faz uma violenta campanha para tentar freiar a candidatura de Trump. Sua candidatura foi lançada para dividir os eleitores e evitar a ascensão de Scott Walker. A manobra saiu de controle.

Trump não representa a ala de extrema-direita dos republicanos, mas tem feito propostas de extrema-direita durante sua campanha, como proibir a entrada de muçulmanos no País e fazer um muro na fronteira com o México para que “imigrantes ilegais” não possam mais entrar nos EUA. Uma possível disputa entre Trump e Bernie Sanders, pelo Partido Democrata, nas eleições presidenciais do ano que vem, será uma disputa com uma enorme polarização. Sanders, pelos democratas, também expressa uma crise de seu partido (e do sistema político norte-americano de conjunto) e está muito à esquerda de Hillary Clinton.

Dia 17, nas ruas contra a perseguição a Lula e o golpe

O PCO convoca a unidade dos trabalhadores e da esquerda contra os ataques da direita golpista que visa impor um regime ditatorial para atacar os direitos democráticos da maioria da população, reprimir a luta dos trabalhadores e da juventude e impor um profundo retrocesso nas condições de vida dos explorados

 

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Os partidos de esquerda, organizações sindicais – como a CUT (Central Única dos Trabalhadores) -, populares – como o MST e CMP – e estudantis – como a UNE – que integram a Frente Brasil Popular e demais setores que se se opõem à operação golpista da direita que quer derrubar o governo de Dilma Roussef para colocar em seu lugar um governo completamente ligado aos interesses do imperialismo, estão convocando uma manifestação para o próximo dia 17, no Fórum Criminal da Barra Funda.

Desta vez,  o protesto se opõe aos ataques contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, realizados pelas alas mais reacionárias da burguesia, por meio de alguns dos principais aparatos dominados pela direita pró-imperialista como a Justiça, a Polícia Federal e a venal imprensa burguesa, dominada por meia dúzia de grandes monopólios.

A Frente Brasil Popular divulgou Nota de Solidariedade, no último dia 5, na qual  “repudia a forma seletiva como vêm sendo conduzidas as investigações da Operação da Lavo Jato”, ao mesmo tempo em que protesta contra “a forma criminosa e manipuladora com que a mídia tradicional cobre e transmite as versões dos fatos, tendo como principal interesse atingir a imagem e a honra do ex-presidente Lula”. No documento em que convoca o Ato, a Frente assinala ainda que “não aceitará a postura golpista e antidemocrática que tanto setores do poder Judiciário como a grande mídia tentam impor ao povo brasileiro”.

O Partido da Causa Operária (PCO), que foi pioneiro no chamado à mobilização contra o golpe e que vem participando de todas as atividade de mobilização contra a campanha da direita golpista, se soma também a esta iniciativa, entendo que os ataques contra Lula e sua família por parte da direita, são parte essencial da operação golpista em curso.

Para a direita pró-imperialista não basta derrubar Dilma. Ela precisa também colocar  Lula “fora do jogo”, pois sabe que caso concretize o impeachment (ou a saida de Dilma por outro mecanismo) precisa deixar o ex-presidente fora da disputa, para que possa realizar novas eleições e dar uma aparência democrática ao regime saído do golpe.

As acusações contra o ex-presidente visam impedir a possibilidade de uma nova candidatura de Lula (com grande apoio eleitoral entre os trabalhadores) e uma nova derrota da direita.

Os ataques contra Lula e o PT – que vem se realizando há vários anos – visam abrir caminho para o aprofundamento em larga escala da onda direitista de ataques aos direitos democráticos do povo brasileiro, de brutal repressão contra as lutas dos trabalhadores e da juventude, de perseguição á organização política, sindical e social dos explorados para favorecer a ofensiva do imperialismo e dos seus súditos em nosso País, diante do agravamento da crise histórica do capitalismo em todo o mundo.

O PCO chama seus filiados, simpatizantes e a todos os trabalhadores a se integrarem à esta atividade e uma ação unitária de todas as organizações de luta dos explorados para barrar – por meio da mobilização nas ruas e pelos meios que forem necessários – a ofensiva da direita.

É hora de organizar caravanas de todas as regiões para participarem do ato. Para impulsionar esta perspectiva, convoca a todos os interessados a participarem da Plenária de análise e debate sobre a situação política, no próximo sábado (13), na Rua Serranos, 90, ao final da qual discutiremos as medidas concretas para participar da organização de caravanas da Capital e do Interior paulista.

O Fórum Criminal da Barra Funda, está situado na Avenida Doutor Abrahão Ribeiro, 313 e o Ato está marcado para começar ás 10h.

Dia 17, todos ao Fórum da Barra Funda. Abaixo a perseguição ao ex-presidente Lula e sua família.

Não ao impeachment! Não ao Golpe!

Jacques Rivette: cinema francês perde um dos “pais da Nouvelle Vague

Cineasta que foi o mais “misterioso” do principal movimento de cinema francês morreu aos 87 anos

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No último dia 29 de janeiro o cinema mundial, mas em especial o cinema francês perdeu Jacques Rivette, cinéfilo, crítico de cinema e cineasta que foi ao lado de Francois Truffaut e Jean Luc-Goddard um dos fundadores do movimento de cinema Nouvelle Vague. Rivette estava com 87 anos e ainda em atividade.

Do Quartier Latin à crítica de cinema

Jacques Rivette era amante do cinema desde jovem, em sua cidade natal, Rouen, ainda adolescente, ele fundou um cineclube. Ao final dos anos 1940, mudou-se para Paris para estudar na Sorbonne e passou a frequentar o Quartier Latin e o círculo de cinéfilos da cidade luz. Foi quando em 1950 fundou, juntamente com o então amigo, Eric Rohmer, a revista La Gazetta du Cinema. Em 1953 Rohmer e Rivette foram chamados a fazer parte da equipe de críticos da revista Cahiers du Cinéma. 10 anos depois Rivette se tornou editor chefe da revista que dirigiu até 1965.

Foi na redação da Cahiers que eles conheceriam François Truffaut e Jean Luc-Goddard e desta amizade surgiria, ainda na década de 1950 um dos mais importantes movimentos do cinema mundial e o principal do cinema francês, a Nouvelle Vague. A eles ainda se juntaria o cineasta e também crítico, Claude Chabrol.

As críticas produzidas por todos eles na Cahiers du Cinéma deixaram marca. Foram os críticos da revista que colocaram Alfred Hitchcock no patamar de filme de arte, em especial, François Truffaut. Já Rivette, amante de Jean Renoir e das comédias norte-americanas da era de ouro do cinema era admirador de Howard Hawks. Ele foi o primeiro a chamar este diretor de “gênio” destacava como genialidade a “evidência” dos filme de Hawks. Este grupo de críticos ficaram conhecidos como “hitchcocko-hawksianos”. Rivette também defendeu bastante nos textos o cinema de Fritz Lang, ainda na fase norte-americana. O cinema de Lang por sinal teve bastante influência sobre as produções cinematográficas de Rivette.

O início da Nouvelle Vague

Mesmo escrevendo para a revista, Rivette tinha muita vontade de fazer cinema. Seu início como cineasta foi em 1949 com o curta metragem “Aux Quatre Coins”, seguidos de “Quadrille” (1950) e “Le Coupe du Berger” (1956). Este último que foi rodado no apartamento de Chabrol é considerado como o ponto de partida da Nouvelle Vague.

O primeiro longa metragem veio dois anos depois, em 1958, com “Paris nos Pertence”, mas o filme só foi para as telas quatro anos depois. Neste filme já é possível identificar algumas das chamadas “obsessões” de Rivette em seus filmes, a estrutura teatral e labiríntica ou fantástica e a improvisação. Estas características fizeram com que o cineasta ficasse conhecido como o mais misterioso do movimento da Novelle Vague.

A censura do General De Gaulle

Em 1966 viria um dos filmes mais polêmicos de Rivette, a adaptação da obra de Denis Diderot, “A Religiosa”. O filme, mesmo antes de ficar pronto, foi proibido de ser exibido nos cinemas. O produtor, Georges de Beauregard, manteve as filmagens, mas o ministro da informação, Alain Peyrefitte, a mando de De Gaulle, proibiu a exibição.

O caso repercutiu nacionalmente o que gerou protestos da classe artística. Cerca de dois mil intelectuais assinaram um manifesto intitulado, “Libérez la Religieuse”, pedindo a liberação do filme e classificando a censura imposta como um retrocesso monárquico do regime. Os protestos chegaram aos sindicatos, realizadores e atores chamaram o governo de paternalista. A repercussão foi tanta que o Parlamento francês discutiu a censura ao filme e depois de muita pressão De Gaulle recuou e liberou o filme declarando “Não quero mais ouvir falar desta Religiosa , façam o que quiserem”.

A Religios”a teve sua estréia autorizada no começo de 1968, mas com restrição para menores de 18. Meses depois os estudantes tomariam Paris nos protestos daquele ano.

Foi no final da década de 1970 que Rivette teve sua fase mais excêntrica e digamos longa. Com L’Amour Fou ( 1967-1968) de quatro horas de duração e depois dois filmes intitulados Out One, “Noli me Tangere” e “Spectre” com mais de 12 horas de duração ao todo.

Depois seguiram-se “Celine e Julie Vão de Barco” de 1974, filme que teve relativo sucesso e “Duelle” e “Noroeste”, ambos de 1976 que foram verdadeiros fracassos de público o que afastou distribuidores e patrocinadores para outros projetos.

As musas de Rivette

Entre as atrizes que trabalharam com Jacques Rivette algumas ficaram marcadas como Jane Birkin, Sandrine Bonnaire, Emmanuelle Béart e Jeanne Balibar.

Nas décadas seguintes se destacam em sua produção “O Bando das Quatro” (1988), com Inês de Medeiros em um exercício de improvisação. “A Bela Intrigante” (1991) com Emanuelle Béart e Jane Birkin que levou o prêmio do Juri no Festival de Cannes, “Jeanne La Pucelle” (1994) com Sandrine Bonnaire interpretando Joana D’Arc e “Paris no Verão” (1995) com Jeanne Balibar.

Nos últimos anos Jacques Rivette, já septuagenário produziu ainda “Quem Sabe” (2001) da relação pessoal de atores de teatro, “Não Toque no Machado” (2007) e seu último filme em 2009, “36 Vues du Pic Saint-Loup” que conta como uma trupe de artistas de circenses tentam superar a morte do dono circo.

Vale a pena conferir o “mistério” dos filmes de Rivette em seus 30 filmes de sua carreira de pouco mais de 50 anos no cinema.